As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Categoria: Artes Plásticas

Mário Cesariny — Uma Certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny, Pena Capital, Lisboa: Assírio e Alvim, 2004 (3.ª edição)

 

«Linha d`Água» (s/d), Mário Cesariny —óleo sobre madeira, colecção MAC

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  Página sobre Mário Cesariny D.-G. L. B.)

  Página sobre Mário Cesariny enquanto artista plástico, artigo de Bernardo Pinto de Almeida, Agulha, Revista de Cultura.

diz-me o «Seringador»…

…que hoje é dia de São Pedro Tomás, Bispo e Mártir, precursor do ecumenismo, um tipo porreiro. Como hoje só se falou do sr. Cavaco, do sr. Alegre e do sr. Castro (RIP), é justo que alguém se lembre deste santinho carmelita descalço; e da bela pintura que o retrata, na Igreja do Carmo, em São Vicente, Braga, que aqui pode ser descomunalmente ampliada.

São Pedro Tomás

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“Vincent” – Tim Burton

O primeiro trabalho em stop-motion de Tim Burton ( ←que tem um fabuloso site, basta clicar sobre o nome). Conta a história de Vincent Malloy, um menino de 7 anos que quer ser como Vincent Price. A narração é do próprio Price.

Peter Callesen – paper works

Para ver o trabalho (e conhecer o percurso artístico) de Peter Callesen (1967 – ) aqui.

«Holding onto myself 3» © Peter Callesen

«Holding on to Myself» © Peter Callesen, 2006

Thomas Schittek – Experimentar ser feliz

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Thomas Schittek - "Columbeira Portugal. S/T. Aguarela sobre Papel. (2008)

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A obra de Thomas Schittek, pintor alemão há muitos anos radicado em Portugal, inscreve-se numa corrente pessoal, que atravessa paralelamente a arte contemporânea, dela se distanciando pela recusa de um discurso meta-referencial, dela se aproximando pelo necessário questionamento da sua leitura. De facto, Thomas Schittek parte de uma metodologia de trabalho onde o fundamento, o desenho, é objecto de sistematização extrema, num registo quase arquivístico,  evoluindo para a tela, em diferentes técnicas que utiliza de acordo com os objectivos expressivos pretendidos – pastel, aguarela, óleo sobre tela; e o azulejo, trabalho de fogo que o pintor tão intensamente domina, não se limitando à pintura, mas operando todo o processo da sua produção artesanal.
É nesta relação com a primordialidade que se pode encontrar uma das possibilidades de leitura da obra deste artista plástico. Tendo como grelha fundadora um universo de referências clássico – os elementos naturalistas, a paisagem, a figuração, Schittek aproxima-se, lentamente (e em toda a obra do autor a lentidão tem um carácter determinante) dos elementos formais mais elementares, num processo ‘regressivo’ em que a geometrização básica, o cromatismo e a coloratura nos transportam para o domínio da fruição da infância, e convidam ao mais primitivo dos olhares: aquele que, maravilhando-se, se interroga.
Estamos claramente no território do prazer de quem cria transportado para o desafio do prazer de quem se apropria. Pintura solar, portanto, mesmo quando atravessada por períodos de tonalidades mais obscuras. Pintura (e azulejaria) de um artista que, num movimento tão característico na história da arte, descobre no Sul os fundamentos da sua obra. Não por acaso, em Schittek dominam as temáticas relacionadas com o mar, a terra, o sol, recorrentemente utilizando  o grande formato. Para uma criança também uma folha de papel é enorme. Progressivamente, o pintor tem-se aproximado de uma figuração mais definida, num percurso de uma coerência alegremente sacudida pela capacidade de reformulação e exploração constantes. De novo o pintor revela até que ponto se permite regressar a uma possível infância.

Situamo-nos, em consequência, perante uma obra marcada pela procura, não conceptualizada mas ‘encontrada’, de um tempo. O tempo de ser feliz. Movimentando-se num campo de linguagem pictórica muito mais amplo que os contemporâneos, fundado na tradição e possuindo o desejo de espanto característico dos modernos, a obra de Thomas Schittek gera espontaneamente um desejo primeiro: experimentar ser feliz.

[Um núcleo de obras de Thomas Schittek pode ser apreciado em Lisboa, numa individual de Escultura e Pintura, na Galeria do Hospital de Santa Maria – CHLN]

Thomas Schittek - Columbeira, Portugal. S/T. Óleo sobre tela.

Thomas Schittek - Columbeira, Portugal. S/T. Óleo sobre tela. (2004)

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Outra Pietá – Jan Saudek

Jan Saudek nasceu em Praga em 1935. Quando muito jovem, ele e um irmão estiveram colocados num campo de concentração nazi e donde só por sorte conseguiram escapar às experiâncias de Josef Mengele. Saudek, que usa a fotografia como forma de expressão, foi um dos primeiros fotógrafos checos a ser conhecido no ocidente, o que lhe valeu a suspeita do governo checo até aos anos 80. As suas fotografias, inicialmente a preto e branco e, mais tarde, a cores, giram em torno da sexualidade e da relação entre homens e mulheres, velhice e juventude, vestuário e nudez. Em geral, adopta uma abordagem antagonista para alcançar poderosos efeitos pictóricos. Sem artifícios, a fotografia de Saudek penetra na plenitude da vida. A sua linguagem directa foi rápida e vivamente aclamada no mundo da arte. (fonte: http://oseculoprodigioso.blogspot.com/, onde pode ser visualizada uma galeria do autor.)

Pietá, Jan Saudek (1997)

Pietá, Jan Saudek (1997)

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Paródia gráfica

A serigrafia de Shepard Fairey com a imagem de Barack Obama transformou-se na imagem icónica da campanha eleitoral americana. Como a imaginação é fértil, deu de imediato origem a sucedâneos paródicos, que utilizam a mesma expressão formal, e reformulam a palavra HOPE em função da personagem.

barack obama

sarah palin

amy winehouse

Bento XVI

Rothko ao contrário?

Na Tate Modern (Londres) pode apreciar-se, até 1 de Fevereiro, uma exposição que reúne as nove obras doadas por Mark Rothko à instituição a outras da série a que pertencem, The Seagram Murals. Outros trabalhos se juntam a este conjunto, para formar aquela que a própria Tate qualifica como ‘the must-see exhibition of the year’. Perfeito, adorava lá voltar, a sala Rothko deixou-me em silêncio durante uma hora, vai fazer três anos, desta vez não posso.

Perfeito? Há quem diga que duas obras de Mark Rothko – do conjunto Red on Maroon, incluídas na referida série de pinturas encomendadas para a decoração do Edifício Seagram, criadas em 1958-9 – estão colocadas ao contrário! De acordo com alguns peritos a questão é básica, uma vez que a colocação das obras deveria ser feita de acordo com a orientação da assinatura do autor. Elementar? Nicholas Serota (Sir), director da Tate Modern, acha que não e parece que nada se fará quanto ao assunto. A seu favor tem o facto de não existir qualquer fotografia ou prova que valide a vontade de Rothko. E a troca de orientação que Rothko deu à linearidade das cerca de 40 telas, passando-as da horizontal para a vertical, de modo a combinarem com os restantes elementos do restaurante do edifício (colunas, janelas, portas).

É verdade que não existirá melhor lugar que a Tate Modern para ver a obra de Mark Rothko, embora uma das possíveis razões para a surpreendente doação que o pintor americano fez, residisse na vontade de ter parte da sua obra no mesmo lugar onde se expunha largamente Turner. Acontece que, com a separação da Tate em Britain e Modern, as obras dos dois autores ficaram dissociadas no espaço.

Mais importante que estas querelas: quem puder, vá ver a exposição do homem que dizia: “I am not an abstract painter. I am not interested in the relationship between form and color. The only thing I care about is the expression of man’s basic emotions: tragedy, ecstasy, destiny.

Red on Maroon Mural, Section 3 1959 © Kate Rothko Prizel and Christopher Rothko/DACS 1998

Red on Maroon Mural, Section 3 1959 © Kate Rothko Prizel and Christopher Rothko/DACS 1998

RCA Secret Postcard

A ideia é genial, os resultados equivalentes. Em 1994, o Royal College of Art encontrou uma forma originalíssima e cheia de espírito para angariar fundos que permitissem apoiar (financeiramente, claro está) os jovens talentos da instituição: o RCA Secret Postcard. Trata-se de um esquema simples e brilhante: solicitar tanto a artistas consagrados do calibre de David Hockney, Damien Hirst, Julian Opie, Tracey Emin, Paula Rego, entre muitos outros ao longo dos anos, como a designers e figuras públicas destacadas (Stella McCartney, Giorgio Armani, David Bowie, etc.) e, finalmente, a jovens artistas  ‘graduated‘ que produzam uma obra de arte, com duas condicionantes: ter o formato de um postal; ser anónima até à sua venda. Assim, todos os anos, cresceu o número de interessados (agora fazem-se filas de espera pela madrugada) e o número de criadores (que ascende actualmente a mais de 1.000). O sainete da história é que: os compradores interessados só podem adquirir os postais (cada um deles em venda por 40 libras) no local, no próprio dia, sem saberem o nome do autor. É assim que, guiados pelo gosto – ou por um apurado faro – alguns felizardos compraram já postais posteriormente leiloados por mais de 10.000 libras. O RCA Secret Postcard já rendeu à instituição, até este ano, em que se comemoram os 15 anos do evento, mais de um milhão de libras, entregues ao Royal College of Art Fine Art Student Award Fund. Nesta galeria apaixonante, divulgada online pelo The Independent, podemos ver uma retrospectiva de postais famosos e de alguns dos que estarão a leilão em 22 de Novembro. Uma ideia destas era capaz de dar jeitaço à Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Nem era tanto pelo dinheiro. Era pelo buzz, pela animação, pela possibilidade promissora de mostrarem que estão vivos.

© Peter Doing

© Peter Doing

Um Secret Postcard, da autoria de Peter Doing, leiloado amanhã, 20 de Outubro, na Sotheby’s. Espera-se que atinja as 15.000 libras.

Fotografia do Dia (IV) – Arte de Rua e Graffiti

Barack Obama é o tema desta galeria de fotografias de graffiti e arte de rua, em cidades americanas (Nova Iorque, Boston). A cultura hip hop não esquece as suas raízes políticas.

New York isn’t the only city boasting Obama street art: this mural in Boston, Massachusetts, features a series of portraits which mix Obama’s face with Abraham Lincoln’s. Ron English’s work was commissioned by Gallery XIV