Maria Sousa — quatro poemas

by manuel margarido

 

 

só o verde fala neste tempo de silêncio 

somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores 

 

espera, pensei em folhas e a primavera explodiu‐me na boca 

 

*

 

a casa é uma memória onde 

devagar desenho percursos 

(mapas para inventar o tempo) 

 

para a habitar reparto as sombras 

 

e enquanto as estações se confundem 

acordo para uma insónia agitada 

onde uma casa existe 

mas não tem paredes 

 

*

 

da noite dizes que a respiração é hábito 

uma ruga a imitar a sombra nasce da cor  

que se define em ausências 

 

apago o tempo na cama por fazer 

soletro‐te a riscar manhãs da noite 

há que respirar com as janelas abertas de par em par 

(cheiram ao verde escuro das árvores)

 

*

 

Em dias de sílabas que 

talvez consigam dar sentido ao ontem 

(é aí que te arrumo) 

 

há sempre os primeiros sons quando do outro lado 

da voz as palavras estão vagas 

 

com o frio a roçar a garganta 

tudo está destinado à fala 

 

dizem que há métodos para abrir o resto da respiração

 

 

Maria Sousa. in, a sul de nenhum norte n.º 6, 2012.

 

 

«home», mickbis @ mickbis, via Deviantart (D.R.)

Maria de Sousa, é editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte. Tem obras suas publicadas em revistas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios  para  endurecimento de lágrimas (Língua  Morta, 2010).