As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Fiama Hasse Pais Brandão — Lisboa sob névoa

 

(ao N.)

 

Na névoa, a cidade, ébria

oscila, tomba.

Informes, as casas

perdem o lugar e o dia.

Cravadas no nada,

as paredes são menires,

pedras antigas vagas

sem princípio, sem fim.

 

Fiama Hasse Pais Brandão. As Fábulas, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002.

 

fotografia: kramsay © kramsay (D.R.)

 

 

 

Maria Sousa — quatro poemas

 

 

só o verde fala neste tempo de silêncio 

somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores 

 

espera, pensei em folhas e a primavera explodiu‐me na boca 

 

*

 

a casa é uma memória onde 

devagar desenho percursos 

(mapas para inventar o tempo) 

 

para a habitar reparto as sombras 

 

e enquanto as estações se confundem 

acordo para uma insónia agitada 

onde uma casa existe 

mas não tem paredes 

 

*

 

da noite dizes que a respiração é hábito 

uma ruga a imitar a sombra nasce da cor  

que se define em ausências 

 

apago o tempo na cama por fazer 

soletro‐te a riscar manhãs da noite 

há que respirar com as janelas abertas de par em par 

(cheiram ao verde escuro das árvores)

 

*

 

Em dias de sílabas que 

talvez consigam dar sentido ao ontem 

(é aí que te arrumo) 

 

há sempre os primeiros sons quando do outro lado 

da voz as palavras estão vagas 

 

com o frio a roçar a garganta 

tudo está destinado à fala 

 

dizem que há métodos para abrir o resto da respiração

 

 

Maria Sousa. in, a sul de nenhum norte n.º 6, 2012.

 

 

«home», mickbis @ mickbis, via Deviantart (D.R.)

Maria de Sousa, é editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte. Tem obras suas publicadas em revistas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios  para  endurecimento de lágrimas (Língua  Morta, 2010).

Herberto Helder — O Extremo Poder dos Símbolos

 

 

«O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar.»

 

Herberto Helder. Photomaton & Vox, Lisboa: Assírio & Alvim, 1979.

 

monoceroi © by monoceroi, via Deviantart (D.R.)