só o verde fala neste tempo de silêncio
somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores
espera, pensei em folhas e a primavera explodiu‐me na boca
*
a casa é uma memória onde
devagar desenho percursos
(mapas para inventar o tempo)
para a habitar reparto as sombras
e enquanto as estações se confundem
acordo para uma insónia agitada
onde uma casa existe
mas não tem paredes
*
da noite dizes que a respiração é hábito
uma ruga a imitar a sombra nasce da cor
que se define em ausências
apago o tempo na cama por fazer
soletro‐te a riscar manhãs da noite
há que respirar com as janelas abertas de par em par
(cheiram ao verde escuro das árvores)
*
Em dias de sílabas que
talvez consigam dar sentido ao ontem
(é aí que te arrumo)
há sempre os primeiros sons quando do outro lado
da voz as palavras estão vagas
com o frio a roçar a garganta
tudo está destinado à fala
dizem que há métodos para abrir o resto da respiração
Maria Sousa. in, a sul de nenhum norte n.º 6, 2012.

«home», mickbis @ mickbis, via Deviantart (D.R.)
Maria de Sousa, é editora, juntamente com Nuno Abrantes, da revista online de artes e letras a sul de nenhum norte. Tem obras suas publicadas em revistas (Criatura, Sítio, Umbigo, Saudade). Escreveu Exercícios para endurecimento de lágrimas (Língua Morta, 2010).
«O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espectáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar.»
Herberto Helder. Photomaton & Vox, Lisboa: Assírio & Alvim, 1979.

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