José Ricardo Nunes — seis poemas

by manuel margarido

Poetas há que passam discretamente ao lado do núcleo do reconhecimento imediato; as instâncias, modos e agentes de validação dos que alcançam nome maior são por vezes aleatórios… e assim deverá ser sempre. Na poesia de José Ricardo Nunes não encontraremos a formalização pretensiosa, a procura da frase de efeito, da figura de estilo, da imagem de grande aparato. Contudo, os poemas que aqui se transcrevem, deixam perceber a importância de um autor perfeitamente alinhado com os seus contemporâneos, que estabelece um inequívoco jogo íntimo entre os lugares, os acontecimentos dos lugares, e os acontecimentos íntimos pelos lugares suscitados. Uma poética feita de pequenas subtilezas, numa voz que aparenta simplicidade, mas que se deixa penetrar muito além do retrato que sobressalta. José Ricardo Nunes continua a publicar, com a regularidade e a constância de quem apenas aparenta  comprazer-se com o labor poético, fora dos circuitos de validação.

[acompanham estes poemas três fotografias de Rui Fonseca, que os sucedem na edição do número da revista Quolóquio/Letras de onde se transcreveram os poemas]

«Esmoriz», (1995), Rui Fonseca (D.R)


CASA DO PÃO-DE-LÓ DE ALFEIZERÃO

Na Casa do Pão-de-Ló de Alfeizerão
como empadas, bebo café,
olho pelas vidraças
em vez de ler.

E a medo escrevo
uma coisa tão diferente

20-IV-97

CABO CARVOEIRO

Quando amanheceu fomos ao Cabo Carvoeiro
ver se o que sobrara chegaria
para suster o mar. E no café da ribeira
não consegui contar as folhas do chá.
Mas terá sido mesmo assim?
Ou pus apenas as pedras de lado,
as maiores, deixando que a areia se escapasse
por entre os dedos? Tão brilhantes
olhos que se puxam
naquela noite de Óbidos,
não houve outra igual.

9-V-97

ESMOLA

Versos,
em brasa,
como tostões à porta de uma igreja
iluminando as mãos
de um pobre.

4-XI-99

«Praia da Vieira», (2000), Rui Fonseca (D.R.)

RAÍZES, OSSOS

Parei o carro à beira da estrada
e fui até junto das raízes
e dos troncos há muito apodrecidos.
O rosto do meu pai e essas oliveiras
São imagens que agora se misturam.
Quase que são a minha nova pele.
Espetadas no vazio, as raízes
aguardam por um pouco de terra
que o tempo foi tornando imaginária.
Sinto o gesto alheio no interior dos ossos
e dou-lhe todos os meus ossos.

25-III-00

REFÉNS

Repetimos os passos,
os mesmos passos do fim
para o princípio. Delapidamos
riqueza: imagem sob imagem
no espelho do quarto, as metamorfoses.
Corpos, uma voz à deriva
por entre amarras e segredos.
Somos reféns.

15-IV-00

UM NOME

O vento trouxe a cinza
para junto da porta da entrada,
um pequeno lençol suficiente
em tamanho e consistência
para que nele com o indicador
possa escrever um nome. Um nome,
não interessa qual.

18-IV-00

José Ricardo Nunes. “Casa de pão-de-ló de Alfeizerão; Cabo Carvoeiro; Esmola; Raízes, ossos; Reféns; Um nome”. In: Revista Colóquio/Letras. Poesia, n.º 155/156, Jan. 2000, p. 249-254.

«Tocha», (1993), Rui Vieira (D.R.)

 

Em 2006, no blogue Poesia & Limitada, o sempre atento João Luís Barreto Guimarães escreve Biografia sumária de José Ricardo Nunes, já inevitavelmente desactualizada, onde se poderão encontrar ainda alguns poemas do autor:
«JOSÉ RICARDO NUNES (Lisboa, 1964) é licenciado em Direito e exerce funções no Ministério da Justiça. Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas (Época Contemporânea), publicou “Na Linha Divisória” (Campo das Letras, 2000), obra à qual foi atribuido o Grande Prémio Eugénio de Andrade 2000, e “Novas Razões” (Gótica, 2002). O seu primeiro livro, porém, foi “Rua 31 de Janeiro (algumas vozes)” (&etc, Lisboa, 1998), que resultou, adivinhamos, de uma experiência literária directamente influenciada pela sua actividade profissional, dado o autor trabalhar no Instituto de Reinserção Social de Reclusos de Caldas da Rainha.»

José Ricardo Nunes no portal da D-GLB.