As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Alexandre O’Neill — O citadino Pipote (conto)

Ainda bem que Pipote não é judoca. Pipote não passa de Suspensório Lilás. Pipote judoca seria o fim. Pipote entra nos eléctricos a ombro. Diz com licença depois de ter passado. Cheira a cebola e a camisa de anteontem. Fala curto. Assim tem mais tempo para chupar os dentes. Pipote usa elástico de câmara-de-ar a envolver a carteira. Traz negócios de ferro-velho, traz os filhos nos estudos, traz uma viúva debaixo de olho. Agora que os móveis (quinanes, principalmente) estão a dar, Pipote vai comprar fragoneta. Já o vejo agarrado ao volante com medo que a fragoneta desalvore. Já o topo a fazer mudanças no joelho da viúva.

Contam-se muitas do Pipote. Parvenu, parvo nu, Piparote não é pior nem melhor, escusam de se estar a rir, que vocês. Piparote começou difícil. Vocês tiveram colégio, manteiguinha no pão, Bucha & Estica nas matinés de quinta-feira. Piparote teve cachações e casqueiro ao mata-bicho. Veio a pulso, Piparote — e com muita honra!

Das que se contam de Piparote, não sei ainda se conte a que me apetece contar. É que não é nada típica, sabem? Remonta aos 14 anos de Piparote, quando Piparote, quer dizer, ainda não era Piparote. Era o cédula Joaquim Serrano Deusdado — Quincarvoeiro para os inimigos.

Não me faço mais rogado.

DE COMO JOAQUIM SERRANO DEUSDADO, ALIÁS, QUINCARVOEIRO, ALIÁS PIPOTE, DEIXOU APODRECER OS DENTES TODOS MENOS UM.

Às 6 horas da manhã, chutaram Quimcarvoeiro para a consulta externa de Todos-os-Martírios. Questão dum obcesso bochechado a aguardente e a raiz de alteia com desinflamação subsequente e recidivas de ganir. Bochecha infla, bochecha desinfla, a cara do pobre já era como um cartucho e o misérias estava por tudo.

A quatro de frente, de cara amarrada, a bicha para os serviços de Odontologia consumia-se e refazia-se ao longo das horas e dum corredor conventual. Quando chegou à porta da sala dos alicates, Quincarvoeiro compreendeu, num ápice, a utilidade das bichas: terem cauda. Um menino que saía da sala segurava os queixos com a manita, vexado de todo, e dava pontapés de desespero na estúpida mãe caridosa.

Uma cigana (sedentária) apiedou-se do chavalito probecito e começou a desenrolar uma lamúria meio rezada entrecortada de cuspinhadelas raivosas para o lado. Um digno velho remendado e limpo reprovava mudamente tudo, não escondendo, na sua sobranceria, que só o mau destino fora responsável por ele se encontrar ali, misturado com a gentalha.

“Trezentos e quinze!”, disse uma voz entreportas que parecia mesmo a voz do creosote. Era a senha do Quincarvoeiro. Este deu um passo ao lado e uma grande coragem de fugir pôs-lhe as pernas em movimento. Pisgou-se para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço.

Ainda hoje o citadino Pipote fala com um dentinho de orgulho desse caso da sua vida de rapazelho. Aliás, é sempre com orgulho que Pipote se revê em Quincarvoeiro, seu querido filho na perspectiva do tempo. Espero que a vossa credulidade chegue onde chegou a minha, quando ouvi esta história do infeliz Pipote: três ou quatro vezes se atrasou para a cauda da bicha, a tomar tempo e balanço. Ao meio-dia, na derradeira repescagem de senhas não respondidas, a bicha era Quincarvoeiro. Até que um dentista, alicate em punho, se avantajou nos umbrais.

Foi apanhado.

Já na cadeira, já de boca ocupada pelos ferros, dedos, espelhinhos, o cédula Joaquim Serrano Deusdado tentou articular uma queixa, soprar uma indicação, subtrair-se o mais que podia à mordedura metálica dos alicates, que andavam, por ali, a planar de mão em mão. Os odontologistas trabalhavam rápida, firme, irrevogavelmente. Se os deixassem entregues à sua própria inércia, desdentariam o mundo real o apanhassem a bocejar de tédio. Três dores agudas, fininhas. Uma patada no estribo da cadeira. Um compasso de espera com ferros a retinir, torneiras a trepidar, desconhecidos cheiros violentos a subirem-lhe ao nariz. Depois, um ríspido «abre mais a boca»!. Abriu mais a boca. Não abriu os olhos. O alicate veio, entrou. Sentiu o choque no alto da cabeça, por dentro. O alicate mordeu. Queriam virar-lhe a caixa dos pirolitos do avesso?

Descomandou-se. Gritou… Mas já, triunfante, o diabo-dentista lhe mostrava o dente, que o alicate continuava a morder.

E Pipote, hoje, comenta, num sorriso de aqueduto em ruínas:

— Sôr Aníbal (eu já lhe disse que não era Aníbal, que era O’Neill…), Sôr Anibal, a vida é assim: o dente que me tiraram estava bom; o estragado cá ficou. Já passaram para cima de trinta anos e nunca mais voltei a esses diabos! Cá me vou governando com os dentes que tenho. Mas digo-lhe a verdade: o dente que me tiraram foi o único dente bom que tive.

E o aqueduto sorri, enquanto Pipote o vai chupando paulatinamente.

Alexandre O’Neill. «O citadino Pipote». in Ficções — Revista de Contos, Lisboa: Tinta Permanente, 2003.

crédito fotográfico: Ben Hickey

Inês Lourenço — três poemas

No número 28 da Relâmpago, revista literária da «Fundação Luís Miguel Nava», dirigida por Fernando Pinto do Amaral, tendo Vitorino Nemésio como tema nuclear,  anuncia-se a atribuição do Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2011 a Helder Moura Pereira, pelo seu livro Se as coisas não fossem o que são. Publicam-se, igualmente, um conjunto de poemas inéditos de alguns autores (Inês Lourenço – Sete poemas; Manuel Gusmão – A pintura corpo a corpo; Miguel Cardoso – de O Mundo e as suas tarefas; Sheryl St. Germain – Seis poemas). Do site online da revista recolhem-se três poemas de Inês Lourenço, que aqui se reproduzem, com expectável anuência da autora e sem possibilidade de contactar a Fundação Luís Miguel Nava. Espera-se indulgência.

DOIS CIMBALINOS ESCALDADOS

Não sei, meu amigo, o que
irradiava mais calor, se
a chávena escaldada, se
o cimbalino fervente, se
as conversas sobre livros de poesia
que nesse tempo, ainda
acreditávamos ser a maior
razão

Curto, normal, cheio
o cimbalino, esse negro odor
com moldura branca
numa mesa de café, na cidade
onde habitávamos desde sempre.

 

CIFRÃO

Dizias: não se importe de perder
dinheiro com a sua revista de poesia. Pelo mesmo,
alguns empenharam jóias de família.

Naquele café com nome monetário
eras bem o poeta de Os Amantes Sem Dinheiro
mas sem anjo de pedra por irmão. Só
nas mesas vizinhas, grupos
buliçosos de estudantes de Belas-Artes, desconheciam ainda
a arte de caçar patrocínios.

Depois mudaste para o Duque, que
copiou o brasão à tua rua, para mais tarde passares
ao mar do Passeio Alegre e às palmeiras da Foz
que chegaram tarde à tua vida.
Mas acabaste por voltar às cercanias das Belas-Artes,
para descansar num Prado, pouco distante
do jardim de São Lázaro, onde segundo outro poeta,
costumavas medir o tesão das flores.

 

CAFÉ ESTRELA D’OURO

Na Rua da Fábrica, perto
de livrarias e simpáticos alfarrabistas,
redigíamos panfes pela libertação
da mulher, devidamente pastoreadas
por um pequeno partido de esquerda, onde
só nos podíamos libertar
ao lado dos homens.

Inês Lourenço. in Relâmpago, n.º 28, Lisboa: Fundação Luís Miguel Nava, 2012.

“Jardim de São Lázaro – vista do lago e da Igreja e Colégio da Nossa Senhora da Esperança ao fundo.” Crédito Fotográfico: JotaCartas, via Wikimedia Commons (D.R.)

 

 

Página da Fundação Luís Miguel Nava (Relâmpago)

Logros Consentidos, blogue de Inês Lourenço

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