Ruy Belo — As Grandes Insubmissões

by manuel margarido

Alguns dias atrás, a transcrição de um poema de António Gregório neste blogue recordou-me, memória longínqua mas muito presente, um texto de Ruy Belo, que li ainda na primeira edição da Dom Quixote, ainda na primeira edição da minha vida. Relendo-o, relendo integralmente Homem de Palavra(s), retomo o grande gozo que a sua leitura repetidamente me deu e a admirável modernidade (também se poderia falar de contiguidade no tempo, contemporaneidade) do livro. O texto transcreve-se agora, sabendo que todo este livro deveria ser lido como algo «canónico», que estabelece uma voz intocável a abordagens, ideologias, perspectivas que o possam menorizar; que desafia e vence o tempo.

AS GRANDES INSUBMISSÕES

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.

Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

— Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.

Tocou para a aula das dez.

— Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo. Obra Poética de Ruy Belo, volume 1, Lisboa: Editorial Presença, 1981. p. 181

«basketball hoop», Arevik © Arevik, via Deviantart (D.R.)

Ruy Belo no portal da D-GLB

Ruy Belo no portal do Instituto Camões