A. M. Pires Cabral — Confesso que voei

by manuel margarido

Duarte Belo — Castro do Pópulo. Pópulo. Alijó. Vila Real. CMP 103 (série M 888) fi480912 04-07-2003

 

1

Mas, se nestas seis décadas e meia

eu fui capaz de algum voo

 

— concedo: semelhante ao das galinhas,

isto é, rudimentar, desgracioso,

com muitíssimo dispêndio de energia

para pouca ascensão, breve e apenas

em desespero de causa;

em todo o caso uma forma de voo

pelo qual me sustentei no ar

em horas de menos peso —

 

devo agora, fechado o ciclo do voo,

como os pássaros pousar.

E isto não é como uma loja

que muda de ramo

ou que em fins de Dezembro

fecha para balanço.

Nem como executar

um mandato de detença.

Nem expiar a desordem

de, sendo pedestre, ter voado.

Nem um remate compulsivo

à sedição.

 

Pousar, é tudo. Regressar

ao afago das coisas da terra.

A terra cobrar por fim o que lhe devo

e eu cobrar dela o que me move

desde a primeira hora.

 

Voei, está voado.

Nada de nostalgias.

 

2

Escolho o galho

mais ajeitado à minha condição

e, como a ave a quem o voo se esgota

temporariamente, apeio-me do voo.

E também como a ave que, acabada

de pousar, bate ainda as asas

por duas ou três vezes,

assim as bato eu.

Mas enquanto a ave as bate

como para sacudir delas

os resíduos do voo,

eu faço-o por exigência de equilíbrio:

o ramo verga, já não tenho

a agilidade doutros tempos,

cairia se não batesse as asas.

Isto é: bato-as da mesma forma que

o funâmbulo tenteia a vara

e o cego a bangala.

Para me acomodar mais facilmente

no exterior do voo.

3

Nem o meu pouso é passageiro

como o da ave. Daqui em diante

assistirei ao decurso dos dias

pousado definitivamente.

Eis-me pois pousado, procurando

ajeitar o corpo à nova condição.

Os olhos erguidos para o espaço

donde me escorracei

para saber se porventura risquei

o cristal do ar com o meu voo.

Um arranhão que fosse, que depois dele

o cristal já não fosse cristal.

Não risquei.

Louvado seja Deus.

Depois de tanto voo desastrado

deixo o ar nítido inteiro

como o encontrei.

(Não admira. Sempre tive o cuidado

de sacudir os pés à entrada do voo.)

4

Não. Não é por nostalgia,

que nesta hora extrema de pousar

me lembram as hábeis imprudências do voo,

as suas impudências, a tomada da luz.

Parece-me isto antes gratidão.

Voar foi sempre o mais útil

dos meus gestos inúteis.

A haste de feno ao canto da boca.

Um donativo à carne.

O orifício por onde

se escoavam as enxurradas.

Intensamente pousado,

é isto que me lembra.

A. M. Pires Cabral, Telhados de Vidro n.º 6. Lisboa, Averno, 2006, p. 11 – 15.

Duarte Belo — Santuário de Panóias. Vale de Nogueiras. Vila Real. Vila Real. CMP 115 (série M 888) nb2054-26 13-05-1996

Créditos fotográficos: Duarte Belo.

Blogue da Averno, editora da Revista Telhados de Vidro (o número 16 acaba de ser publicado)

A. M. Pires Cabral no portal da D-GLB.

 

(no segundo poema, antepenúltimo verso, surge impresso «e o cego a bangala». Optou-se por manter tal como está publicado.)