Mário de Sá-Carneiro — Além-Tédio (na celebração do dia de nascimento)

by manuel margarido

Na celebração do 122º aniversário do nascimento de Mário de Sá-Carneiro

 

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive –
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital…
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu… Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha côr!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tedio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios…

 

Paris 1913 — 15.

Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão, (2ª ed.), Coimbra: Edições Presença, 7 de Outubro de 1939

 

Capa do livro, com ilustração de Júlio*

 

Mário de Sá-Carneiro no portal da D-GLB

 

* Nota biográfica do artista plástico Júlio