Joana Jacinto — Ordinal

by manuel margarido

 

Ordinal

                                                                                                           

I

Espera um segundo,

Se eu te disser

‘Espera um segundo’

Confiarão os teus dias naquilo que os olhos ouvem?

Espera um segundo.

Abre mão

das palmas dos olhos,

das palmas das mãos,

das palmas dos braços,

da palma do regaço,

das palmas dos pés

Nelas: todos os corações.

 

II

Espera um segundo,

Divide cada momento em seis.

Contempla o arco

o sol

Deixa cada momento morrer

na palma da tua mão.

As mulheres amam sempre.

Espera um segundo,

Estende a língua ao silêncio.

Sabe-o. Sobe

sobre o degrau último do tempo

Ouve-a, que paira.

As mulheres têm vários corações.

Espera um segundo,

Extrai os dias

da rocha

o tempo

Coloca-os sobre uma placa de madeira.

Destila o sal

do conta-momentos

momento-a-momento

a-tempadamente

fende:

Sagra dos dias a forma intacta.

As mulheres amam sempre.

Guarda o tempo,

momento-a-momento

recolhe-os para o verão.

 

III

Espera um segundo,

Des-conhece.

Des-arruma, des-compara, des-ordena

o cheio

chão das coisas.

Des-sê.

As mulheres têm vários corações.

Um no círculo dos olhos

chama-se  relâmpago,

espelho.

Um no círculo das mãos

chama-se  pele,

esquisso.

Um no círculo dos braços

chama-se  tear,

edifício.

Um no círculo do regaço

chama-se  pomo,

pérola.

Um  no círculo dos pés

chama-se  casa,

eternidade.

Espera um segundo,

Como se tivesses seis anos

 

e um sorriso de gengivas

o aguardasse debaixo da almofada pela manhã.

 

 

Joana Jacinto, in Cràse n.º 1, Março 2010

«Little red riding hood», Raccoon © Raccoon, via Deviantart