David Teles Pereira — Pequena elegia da memória

by manuel margarido

 

Não nego que me sinto vencido

pela tua distância,

uma pedra e um pouco de gelo no sangue

uma violeta na primavera desta morte em flor.

A aflição não passa,

ainda que eu permaneça na defensiva, dia após dia,

na retaguarda do teu afecto.

 

Tocar-te o músculo, tal como a um livro de biblioteca.

Mas agora, o que se mantém vivo e fresco

no teu estojo de ossos? Assim, dizem,

se retira aos nossos restos, ainda que dignos,

o nervo e a tentação do teu nome.

 

Não dizer o teu nome, nunca. Não pode dar-se

tesouro eterno assim a mãos que me recusaram.

Quanto mais morres, mais difícil é dizer-te,

 

mais fácil é dizer apenas… corpo.

 

 

David Teles Pereira, Resumo, a poesia em 2011, Lisboa: Documenta / FNAC, 2012. (originalmente publicado em Criatura/6, Lisboa: Núcleo Autónomo Calíope da A.A. da F. de Direito de Lisboa, 2011.)

 

«Flaming June», Sir Frederic Leighton, 1895

 

Nota biográfica do autor, no portal «Poems from the Portuguese» (onde é possível encontrar versão deste poema em língua inglesa)