Ana Salomé — Grandes poetas

by manuel margarido

Notável poema sobre antigo e assinalável dilema, nada novo, mas… Aqui esplêndido, na forma como é poeticamente exposto por Ana Salomé. Perante a idealização poética de uma realidade concreta (expressa nos poemas, no “antes”) e uma realidade concreta que se realiza de forma natural, aparentemente banal, mas tão mágica (como nos poemas), distancia-se este texto da finalidade poética, com traços marcados pela ironia, que o próprio título já enuncia, e paradoxalmente pela mais cortante definição de uma verdade que é sua, da autora. Alcança uma maravilhosa formalização, como seria de esperar da autora.

 

Grandes poetas

Agora talvez entendas porque não escrevo
entretida com a arquitectura volátil dos dias
com os afazeres esponsais e profissionais
a apanhar eléctricos em curto-circuitos
às voltas com este tumulto manso que abafo
porque, sejamos sinceros, só grandes tumultos
dão grandes poetas, de resto há a frieza
dos que se mentem a si próprios
e vão chamando a si os pássaros
quando o que deveriam era libertar os seus
numa torrente que não acompanham ortografias
nem radiografias sentimentais.

Desculpa se me tornei naquilo que queria ser
quando escrevia: amante e amada
de tal forma que se tocar em flores elas se multiplicam
se beber água nasce um caudal por entre milhares de minérios
se falar de estrelas um segundo demora anos-luz a passar.
À antiga pergunta se antes a vida que a escrita
melhor a primeira quando pior é a segunda
porque, mais uma vez a sinceridade,
só grandes vidas dão grandes escritas,
grandezas díspares, com certeza, mas grandezas, sem dúvida.

Assim chego eu a casa e faço o jantar
e lavo a loiça – quando não a acumulo em pilhas –
e leio livros – quando não me lembro da televisão –
e sou feliz quando enlaço as mãos na maresia
e vou ao cinema com amigos
e passeio de braço dado com a mamã.

Se isto dá uma grande poeta?
tenho-me perguntado, todos os dias,
e à noite uma cavalgada inquieta
dirige-se à região desamparada do cérebro
à côncava existência do corpo ainda insatisfeito
a essa solidão sublime que me levou em certos dias
aos Himalaias e noutros ao farol de Brest.
Nesses segundos que se dirigem a mim
Von Hofmannsthal volta ao esperma para não nascer
e tudo é possível desde amar mulheres até matar
e sobreviver ao crime limpidamente.

Nesses segundos os meus poemas poderiam ser grandes
e ser eu uma grande poeta
apascentando-me de folhinhas de louro
e para mim ter metros infindos de mundo por explorar.

 

Ana Salomé in «Pátio Alfacinha»— blogue da autora, 20.01.2012

 

«start», elojoizquierdo © elojoizquierdo, via Deviantart (D.R.)

 

Pátio Alfacinha, blogue de Ana Salomé.

[tendo deparado agora com este notável poema, quis trazê-lo para aqui, de imediato. À Ana Salomé peço indulgência pela transcrição, que não foi, em nenhum sentido, um copy/paste]