Helder Moura Pereira — Por um Rosto Chego ao Teu Rosto

by manuel margarido

Por um rosto chego ao teu rosto,

noutro corpo sei o teu corpo.

Num autocarro, num café me pergunto

porque não falam o que vai

no seu silêncio aqueles cujo olhar

me fala da solidão.

Esqueço-me de mim. Tão quieto

pensando na sua pouca coragem, a minha

sempre adiada. Por um rosto

chegaria o teu rosto, mesmo de um convite

ousado fugiria, esta mão conhece-te

e desenha no ar o hábito

por que andou antes de saíres

do espaço à sua volta. Estás longe,

só assim podes pedir algumas horas

aos meus dias. Sem fixar a voz

a tua voz é uma corda, a minha

um fio a partir-se.

Helder Moura Pereira, De Novo as Sombras e as Calmas, Lisboa: Contexto 1990

 

«face to face», christiane © christiane [http://scheinbar.deviantart.com/]