As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Helder Moura Pereira — Por um Rosto Chego ao Teu Rosto

Por um rosto chego ao teu rosto,

noutro corpo sei o teu corpo.

Num autocarro, num café me pergunto

porque não falam o que vai

no seu silêncio aqueles cujo olhar

me fala da solidão.

Esqueço-me de mim. Tão quieto

pensando na sua pouca coragem, a minha

sempre adiada. Por um rosto

chegaria o teu rosto, mesmo de um convite

ousado fugiria, esta mão conhece-te

e desenha no ar o hábito

por que andou antes de saíres

do espaço à sua volta. Estás longe,

só assim podes pedir algumas horas

aos meus dias. Sem fixar a voz

a tua voz é uma corda, a minha

um fio a partir-se.

Helder Moura Pereira, De Novo as Sombras e as Calmas, Lisboa: Contexto 1990

 

«face to face», christiane © christiane [http://scheinbar.deviantart.com/]

 

Adília Lopes — Não gosto tanto de livros

 

Não gosto tanto

de livros

como Mallarmé

parece que gostava

eu não sou um livro

e quando me dizem

gosto muito dos seus livros

gostava de poder dizer

como o poeta Cesariny

olha

eu gostava

é que tu gostasses de mim

os livros não são feitos

de carne e osso

e quando tenho

vontade de chorar

abrir um livro

não me chega

preciso de um abraço

mas graças a Deus

o mundo não é um livro

e o acaso não existe

no entanto gosto muito

de livros

e acredito na Ressurreição

dos livros

e acredito que no Céu

haja bibliotecas

e se possa ler e escrever

 

//

 

Lopes, Adília, Obra, Lisboa: Mariposa Azual, Lisboa, 2000

 

Dimitri Caceaune ©Dimitri Caceaune,via Deviantart (D.R.)

Adília Lopes no site da D-GLB