Pedro Mexia — Alexandria

by manuel margarido

 

 

Lisboa não é Alexandria mas

Alexandria não passa de uma metrópole

em versos subida e sublimada, a sua geometria,

as incisões do pequeno desespero.

Dêem-me uma cidade, que esta minha

está cansada e não quero outra,

escadarias em que se desce sempre,

velhas varandas apalaçadas,

dêem-me uma Alexandria do pensamento,

com uma antiguidade a dourar cada hora,

cada entardecer, mas uma antiguidade

falsa, hiperbólica,

subtil de tão imaginada, unreal city.

Lisboa não é Alexandria e está cansada, houve sítios

que conheci, outros ocultos,

percursos que adivinho no avanço

das multidões, dias de festa,

lambris de janelas, amuradas.

Não quero este rio, nem o outro,

heraclitiano, que me oferecem

umas breves obras completas na estante.

Dêem-me uma cidade terrestre, sem posteridade

ou idioma, uma cidade para que eu possa

inaugurar o passado das ruas

e, sem outro propósito, respirar.

 

Mexia, Pedro, Menos por Menos – Poemas Escolhidos, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011

 

«life breath», m0thyyku © m0thyyku, via Deviantart (D.R.)