Agustina Bessa-Luís — Os Cinco Reis Mouros

by manuel margarido

ilustração de Ilda David © Ilda David (D. R.)

OS QUADROS deste diário que escrevo espelham para mim as glórias de Lisboa. Seu ar róseo e materno, seus ventos e sombras que Monsanto despede até às nuvens.

Começando pelo princípio, dentro dos campos de Ourique se deu um caso que nunca foi bem explicado. Tendo Afonso sido jurado rei pelos soldados, o que o fazia mais general deles do que príncipe de todos nós, teve por empreitada combater cinco reis mouros; havia-os aos bandos, e eram tão numerosos os califas e os sultões que a Espanha e os Algarves estavam cheios dos seus palácios aonde os reis cristãos mandavam os filhos como hoje se mandam às universidades. A cultura deles era formidável e nas matemáticas não havia quem os igualasse; nem na poesia, porque a sensibilidade extrema vai muitas vezes a par com a crueldade mais refinada.

O triunfo era duvidoso em batalha tão desigual. Cinco reis mouros não são cinco réis de gente; é muito mais. Afonso, muito calado com o seu escudo e cota de armas, viu Cristo na cruz, ao levantar os olhos para o lábaro que receava perder. E Cristo disse-lhe que havia de ter vitória sobre os infiéis. Afonso não se intimidou com a aparição e falou cara-a-cara com o Senhor:

— Não venhas a mim mostrar-te, porque eu creio e não preciso de milagres para crer. Mostra-te aos meus inimigos que, esses sim, precisam de te conhecer para nos temer a nós.

Esta fala, de tão arrojada, não foi muito do agrado dos catequistas e não se ensinou nas escolas. Eram tempos maravilhosos em que se começava a ser português, e para isso era preciso valor tão grande que os céus o recebiam como medida do homem. Que saudades dessa pátria inventada num milagre que se recusa! O povo miudinho corria ao lado dos grandes pecadores, que eram almas grandes também. Confiavam neles; com lágrimas e com juras, confiavam neles. Afonso mandou pintar na sua bandeira cinco escudetes azuis, em lembrança dos cinco reis vencidos. Ainda lá estão, reparem bem. Pensar nestas coisas distrai o coração de velhacarias, que foi o que se multiplicou passados tempos, e hoje não há mais lugar na terra para tanta instrução maliciosa.

A memória cativa as coisas num lugar fabuloso, que é onde mora a esperança. Mas é certo que os primeiros passos na ordem da pátria tinham que ser agigantados, não só pela fábula, que os serviu, também pela coragem que só protegeu. Afonso, que no ardor de vencer se esquece de se submeter ao milagre, é coisa digna de se ver e de recordar. Como se lá estivéssemos em carne e osso.

Agustina Bessa-Luís, Os Cinco Reis Magos, «Revista Kapa» nº 2, Novembro de 1990, p. 159. — ilustração de Ilda David, acompanhando o texto na publicação original.