Rui Pires Cabral — «Do coração da noite vinham apelos e silêncios»

by manuel margarido

 

«Do coração da noite vinham apelos e silêncios»1

Para o João Menau

 

As cidades doem, estão dentro de nós

mantidas por laços de fumo e desejo,

têm muros úteis e portas escondidas

que dão para a noite, como certos livros,

e há amores que vivem a horas tardias

 

e outros que se cortam no fio da trama,

queimam paus de incenso para abrir

caminhos, remover obstáculos, há curvas

e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.

As cidades cansam, estão nos nossos

 

dias, têm mil janelas de azul virtual

que nunca sossegam e nunca terminam

e há corpos que ensinam a temer a morte,

sombras que circulam nas redes do escuro

e homens que ferem para não chorar.

 

1Albert Camus, A Morte Feliz [tradução de José Carlos González], Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 102.

Cabral, Rui Pires, Oráculos de Cabeceira, Lisboa: Averno 2009

 

«Prey», Nuno Figueira © Nuno Figueira, via Deviantart (D.R.)

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