António José Maldonado — Dies Irae

by manuel margarido

Alguns poetas caíram num aparente esquecimento e é como em tudo, pouco haverá a fazer. A indignação apenas indicia que quem a exprime possui memória e possível pendor para a indignação. Não é o caso, apenas recentemente conheci alguma pouca obra deste autor. Como não acredito que os bons poetas (e mesmo os menos bons mas ainda assim bons) se desvaneçam no éter, não me preocupa muito recomendar a redescoberta de António José Maldonado. Cada um encontra, reencontra ou tropeça no que lhe calha. E, nestas coisas,  creio muito na causalidade dos acasos. De vez em quando, num dia feliz, achamos o que nos esperava.

[Nota biográfica singela, seguida de poema e hiperlink (satisfatório) para a entrada sobre o autor no portal da DGLB:]

«Poeta português nascido em 1924, em Bragança. Após ter terminado os seus estudos secundários, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de onde se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas.
Deu então início a uma carreira docente, lecionando em escolas secundárias situadas em vários pontos do país, como por exemplo, Faro, Lisboa e a sua Bragança natal. Chegou também a ocupar o cargo de reitor em instituições de ensino em cidades da Angola colonial, como Lobito e Carmona.
Em 1951 fundou, em parceria com Jorge Nemésio, Fernando Guimarães e José Manuel Ferrão, a revista Eros. Estreou-se como poeta nesta publicação, que foi mantida até 1958, e na qual figuravam também ensaios.
Publicou o seu primeiro livro em 1960, uma coletânea de poemas intitulada Futuros ou Não. Com um intervalo de mais de duas décadas, seguiu-se Limite Cultivado (1984).
António José Maldonado foi inserido pela crítica na chamada “Geração de 50”, que se tornou célebre pelo seu inconformismo e revolta contra o regime salazarista. De entre os seus poemas destacam-se particularmente “Êxodo”, “Dies Irae” e “Os Fundadores de Cidades”.»

António José Maldonado. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-10-09].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$antonio-jose-maldonado&gt;.

 

DIES IRAE

 

Não me esqueçais

vós, coexistentes insectos, andados objectos da minha alma.

chão consultado por muito povo,

sala própria de todos os destruídos invernos.

Sob o sol, entregamos o chão da erva

e tu, arcanjo — cimento de luz —, unirás a agonia dos frutos

às raízes dos astros.

Rumor nenhum ultrapassará o fogo e a água

e demoradas cicatrizes continuarão o assombro da unidade.

Na baía mais larga, as línguas de Pentecostes instruirão

os ceifeiros para as espigas desta jornada.

Terminada a conjunção do tempo,

as primaveras expõem aos ombros sua nudez silenciosa.

Amanhã beberemos paciência,

amanhã será o homem encontrado no seu osso,

sua fala arredondada pelas marés,

seu dedo dócil — a medo pintado — sem título,

e tu, Senhor, desocupado de passado e de futuro,

cercado de altura e de provérbios.

 

Maldonado, António José, Colóquio/Letras n.º 33, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Setembro de 1976.

 

«Seven pomegranate seeds» — Franglais Photography © Franglais Photography, via Deviantart (D.R.)

  António José Maldonado no site da DGLB