António Franco Alexandre — Acrilírico

by manuel margarido

as suas ágeis mãos sonharam tempo

quase entre os meus recados, os secretos

canais onde altos barcos, a

brancura,

sabia o som das vozes imortais.

juntou-me ao seu cabelo, à sua audaz

mudança de memória.

agora encosto os cantos nas esquinas

na prata enevoada dos seus dedos.

já me esqueci? não sei se me persiste

um duro chão, a escada

redonda onde nasci,

a breve idade.

estou no vento que escorre as suas águas

na barreira de incesto que nos move.

em suas mãos dissimulado

avança, entre clareiras, o roteiro

de nossas mansas aves.

aceito a sua água, o seu retrato

junto à ponte, no meio

de inúteis castiçais.

ouço-a, de noite, sussurrar as penas

que a língua não consente.

 

é o seu bafo que me aquece

as brilhantes retortas

o doce candelabro.

eis a sua pálida figura, o seu retrato

a giz nos vastos

armazéns do império.

és este cuspo de óleo, este ligeiro

verso da lembrança.

ou ficará de mim esse outro rastro?

no resto dos seus olhos

pousarei o lençol, lembrando

o ângulo das chuvas, e os brandos

meteoros.

passeio-me

de tranças, com um fio

azul por entre as franjas

flexíveis da memória.

encontro esse motivo nos teus dedos,

na sua carne de curtume branco.

deixa que viva nos seus olhos, rosto.

entornou-se no vento foi delgada

como as ruínas de uma

breve espera.

Alexandre, António Franco, Colóquio/Letras n.º 53, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1980

photographer: Jerrica Raglin — Via Deviantart (D.R.)