Tomas Tranströmer — Prémio Nobel da Literatura 2011 (3 poemas)

by manuel margarido

(post reeditado)

Ao fim de quinze anos (Wislawa Szymborska foi distinguida em 1996), um poeta recebe o Prémio Nobel da Literatura! Saramago e Pinter escreveram poesia, mas não eram propriamente poetas. Um acontecimento, embora o nome de Tranströmer fosse desde há muito um dos apontados como possível laureado. Aqui se deixam 3 poemas do autor respigados online e uma belíssima fotografia do poeta (que pode ser muito ampliada).

Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”

(Tradução de Vasco Graça Moura)

Tranströmer, Tomas, 21 Poetas Suecos, Lisboa, Vega, 1980.

Novembro

Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.
O céu constrói-se, em chamas.
Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.
E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.
Algumas pedras brilham como luas cheias.

(Tradução do alemão para português por Luís Costa)

A Neve Cai

Os funerais aproximam-se
cada vez mais densos
como placas da rua
quando nos aproximamos de alguma cidade.

O olhar de mil pessoas
na terra das longas sombras.

Uma ponte constrói-se
lentamente
sempre a direito no espaço.

(Tradução para português por Luís Costa)

tomas tranströmer

(clique para ampliar)