Helder Moura Pereira — Quando estamos assim

by manuel margarido

Quando estamos assim

deitados e nus, sem

a minha cara saber

se é a tua cara à frente

dela, parece-me bem

que o mundo é uma coisa

às escuras, sem importância

nenhuma. Dou a volta,

rodopio como um artista

de circo, estou dentro

de uma rotina, quando

lavo os dentes e visto

o pijama de flanela às riscas

sinto-me um miúdo pequeno

que desconhece o que é

morrer. Chamaste-me

sentimental, sentimental

é a tua tia.

 

Pereira, Helder Moura, Um Raio de Sol, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

 

«9.04», Antagonist © Antagonist, via Deviantart (D.R.)

 

Helder Moura Pereira no site da D.-G. L. B.