Vasco Graça Moura — [rondó da escrita]

by manuel margarido

 

no que escrevi me traduzi

e traduzi outros também

e traduzindo me escrevi

e a escrever-me fui eu quem

 

das várias coisas que senti

fez sofrimento de ninguém.

depois risquei, depois reli

e publiquei: assim porém

 

havia sempre mais alguém

para o chamar então a si,

também vivendo o que menti

mas como seu, mas como sem

 

ter sido meu o que escrevi

fosse por mal, fosse por bem.

é sua a vez. e que mal tem?

no que escrevi sobrevivi.

 

Moura, Vasco Graça, Testamento, Lisboa: ASA, 2001

 

fotografia da série «Architect's Brother», © Robert and Shana ParkeHarrison

 

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