João Miguel Fernandes Jorge — dois poemas

by manuel margarido

 

UM

Quieto nesta dor porque quieto e
não sabendo se na praia o mar sobe ou
o mar desce neste momento neste momento os olhos descem a
uma certa distância pela rua sobre o lado da igreja (azulejos
do segundo quartel de setecentos) — à mulher imóvel sob
a porta lateral. Os arcos os capitéis as colunas.
Onde queres ir? Se a minha própria casa está fechada. Onde
queres ir?
Ou sonhar por estas ruas desconhecidas?

Mas a criança sabe sempre o meio secreto de abrir a pequena porta
do quintal que os limoeiros têm agora flor e os coelhos coelhos
mais pequenos — e uma porta cede sempre a porta mais misteriosa — e
a criança segue imóvel o cheiro do limão a cabeça cinzenta do coelho —
um sentimento de força novo um sentimento sem limite
tudo começa como uma lâmpada acesa nitidamente num espelho.

Corpo corpo ou sonhar por estas ruas conhecidas?

 

«Stories from the city», BlackMamba © BlackMamba, via Deviantart (D.R.)

 

DOIS

Um dia entrou de cair a neve. Espaço relativo
que as pessoas nunca viram onde vão colocando
pensamentos nunca tidos. Mas um dia entrou de cair a neve
a neve que tanto comoveu o cavaleiro de Elvas tão cedo
da América me contou «Das cartas que tão ansiosamente esperei
durante as tuas férias e o período mais chato da minha
vida, nenhuma chegou. Foi pena, porque receber cartas origina
uma loucura tão grande como sair ao fim de semana e
ao fim da tarde». Contou. Da expiação. Porque daqueles que
expiam do corpo o simples movimento o espaço do nosso ar.

Infeliz sobre o rio?

Se o movimento é sempre relativo. E mesmo se fosse absoluto
podia mudar: o repouso. O repouso? É o caminho do finito ao
infinito. Nada mais. Assim o sei passado com aquela jovem oferecendo
perfumes a Afrodite e contigo preso a cartas que tão
ansiosamente não
escrevi.

Jorge, João Miguel Fernandes, Colóquio/Letras n.º 18, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1974