António Franco Alexandre — Sem palavras nem coisas (um poema)

by manuel margarido

 

 

2.

 

Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar

as árvores: mas aquilo que amaste perdura.

Junto da água morna os animais aguardam o ruído

vegetal da noite, e as luzes bocejam

a mansidão das pernas esticadas: o amor

não tem tempo, e dura no que amaste.

Dura de repente nos olhos abertos e

a água que respira no flanco dos animais

bocejando devagar a chegada da noite e das

redes e os passos mornos dos caçadores,

e as luzes escancaradas do silêncio. Dura

esticado nas árvores, dura mansamente sem

palavras nem coisas, sem tempo para

aguardar as mãos do caçador e as redes

mornas respirando sobre a água: aquilo

que amaste perdura.

 

Franco Alexandre, António, Sem palavras nem coisas, Lisboa: iniciativas editoriais, 1974

 

«we just want to live», karina © karina, via Deviantart (D.R.)

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