Possidónio Cachapa — «O rio»

by manuel margarido

As águas subiram escuras. O homem estendeu o braço, o músculo amaciado sobre a carne sã e agarrou o pulso da mulher. Ela tinha nas mãos gordas um anel de noivado de onde a pérola desertara e uma aliança coberta de lama do rio.

— Agarra-me com mais força que tenho medo que escorregue.

Ele assentiu e estendeu mais a mão de modo a cobrir o braço da mulher de forma inabalável.

Do outro lado estava um homem magro a quem chamavam “Desconfiado”.

— Não se consegue…

Um murmúrio reprovador levantou-se entre os outros. Mas nessa severidade havia também a crença de que ele não falharia. Que não poderia falhar. A chuva começou a cair com mais força e as águas cresceram ainda um pouco mais.

Na margem, os filhos tremiam, abraçados uns aos outros. Tinham os cabelos espalhados pela cara, empurrados pelo vento e colados pela chuva e pelo medo. Havia, entre eles, um rapaz e uma rapariga muito altos. Não teriam mais de treze ou catorze anos mas a sua estatura elevava-se dos outros como um cacto se destaca das pedras. Olhavam-se de vez em quando. Desde o princípio que se olhavam. Sabiam mais do que os outros sobre o que poderia vir a acontecer. Eram demasiado novos para terem medo por mais alguém que por si próprios. Os sapatos enterrados na lama e tinham medo. Calçavam ainda os mesmos ténis com que tinham passeado entre as árvores, alguns dias antes, apenas. Não tinham tido medo ao dar as mãos, o céu a brilhar por cima deles entre árvores que davam frutos que ainda não se poderiam comer. Sorriam quando não imaginavam que o mundo se poderia transformar numa coisa realmente hostil e perigosa. Ouvia-se, nessa tarde, vozes de raparigas que passeavam, também elas, entre as dunas, descalças na areia quente, o chão uma lagoa imensa e dourada que não existia. Tinham agora na frente uma laguna concreta, movimentando-se incontrolável. E já não havia sol nem frutos nas árvores, nem vozes de moças ou andamentos de pássaros… Apenas os rios unidos a inundarem a terra inesperada, a desfazerem as dunas, a levarem as casas. E toda a alegria partira à medida que as vozes dos adultos se tornavam mais tensas e inquietas; que os braços dos adultos se fechavam uns sobre os outros; que os ombros começavam a configurar-se como uma ponte.

— Elias – disse o pai. E tudo nessa voz se partia ao pronunciar o nome do filho. Tudo nela se amaldiçoava por ter de chamar por ele, à medida que já não havia mais braços nem corpos de adultos para chamar. — Elias – repetiu o pai, do outro lado do círculo.

Ele olhou para ela durante um segundo, antes de entrar na água até à cintura. Abraçou-se aos que ainda havia pouco o passavam de colo em colo.

Melia hesitou um pouco. A mãe antecipou-lhe o gesto e gritou:

— Ainda não!

Mas já ela entrara nas águas, as saias curtas flutuando em redor. Os braços finos a sumirem-se entre os dos homens e mulheres. O rosto que procura sorrir para descansar a mãe. “Ainda não”, tinha dito esta.

As crianças pequenas começaram a subir pelo corpo dos mais velhos, agarrando-se-lhes aos cabelos e às orelhas, deixando marcas de unhas nas faces barbeadas, demorando-se tempo demais quando passavam pelos seus próprios pais e choravam. A tempestade aumentara a um ponto em que já quase não se respirava entre a chuva. E os meninos tentavam passar a um e um para a margem do rio que nunca tinha existido.

Mas o rio era longo e os adultos poucos. Foi o primeiro homem a perceber.

— Não nos salvaremos todos.

E toda a gente começou a gemer e a dizer os nomes das pessoas queridas. Ramos frágeis desprendiam-se das árvores e voavam em direcção às caras e às mãos que saiam das águas, ferindo. O rapaz e a rapariga tremiam, mas nem por um momento tentavam soltar as mãos. Nos ombros o peso das crianças pequenas que eram também elas embora não o parecessem.

— Façamos um círculo – disse o homem. —Uma pirâmide. As crianças mais pequenas que subam para as costas das que forem um pouco maiores e assim sucessivamente.

Por cima, Deus mandava as nuvens e a chuva e o vento e o frio e as trevas que cobriam o dia, enquanto por baixo tudo eram águas castanhas e revoltas, a terra desaparecida.

Os que estavam mais para a frente recuaram e, virando o corpo, deram as mãos aos primeiros. E sobre as suas cabeças, as crianças um pouco mais velhas puxavam para as costas as mais pequenas, as que mais choravam.

E as águas subiram e tocaram nas primeiras bocas que eram as das mulheres mais velhas. E a da rapariga que um dia tinha passeado com um rapaz por entre árvores de frutos verdes. E os últimos queixumes calaram-se, para ficar apenas o silvo da respiração que saía pelas narinas em pânico. Fecharam os olhos os filhos e esperaram que a água de baixo se unisse à que caía do céu.

E então, a chuva começou a decrescer. O vento diminui de intensidade. As nuvens mais escuras afastaram-se e a luz iluminou de novo o mundo que se esperava submerso. Deus recuou para a sua caverna do alto. Um pássaro apareceu a rasar as águas e desviou-se a tempo de chocar contra uma pirâmide de homens e mulheres que levantavam os filhos acima de si. E ao passar muito perto de uma menina que havia muito pouco começara a falar viu no reflexo dos seus olhos a história da sua própria vida. E só então se afastou, na direcção de um monte onde as águas começavam lentamente a baixar.

Cachapa, Possidónio, in «Contos que Contam», Lisboa: Centro Colombo, 2005

 

(colectânea de contos, “um projecto do Centro Colombo a reverter para o Instituto de Apoio à Criança”)

 

«monitoring the flood», christian © christian, via Deviantart (D.R)