As Folhas Ardem

a poesia do mundo. o mundo da poesia. incêndios e queimadas.

Month: Março, 2011

Miguel-Manso — Balada da Rua Damasceno Monteiro

 

(à sara)

Os poetas não são augures; mas viveram impossivelmente antes o que veio depois, sentiram improvavelmente antes o que aconteceria depois; não adivinham: passam pelo que que há-de acontecer, pelo pressentimento dos segredos de uma casa, dos segredos de uma rua. O que está escondido têm  os poetas, alguns poetas, revelado para si, assim. E assim foi. Como no poema.

 

BALADA DA RUA DAMASCENO MONTEIRO


ardia de amor pela casa

numa confusão de silêncios ou

dizendo de outro modo


afundava-se numa líquida recordação cardíaca


ocultos pólen pólvora fósforos

a má reputação dos dedos

paixão cartografada remota

toponímia dos enganos


braço a braço crescia alto

o incêndio no interior do peito

deliberado ritual de lâminas e pele

a transparente certeza

da cicatriz


mas ardia de amor pela casa soturna

silêncio dando para o saguão luz muitíssimo

extinta por sobre a larga extensão destruída


morrer, principalmente de amor, é

uma compendiosa tarefa doméstica


dentro do coração antigo

serei breve


Miguel-Manso, Contra a Manhã Burra, Lisboa: Mariposa Azual, Maio de 2009

grafitti na Rua Damasceno Monteiro

Tiago Araújo — Matar o Tempo

 

MATAR O TEMPO

(mente corpo)

nasci gémeo. o meu irmão falso

morreu quase à nascença. formei a personalidade

como a memória da metade que me falta.

é o meu irmão que à noite se contorce a coreografar

a comédia dos enganos, num processo de transferência

que se desenvolveu com um

movimento duplo: um

sentido crítico demasiado apurado e um

distanciamento em relação a mim próprio enquanto

personagem sem vontade das narrativas que criei.

em resumo, um catolicismo pessoal, com

ciclos consecutivos de culpa, arrependimento e absolvição.

quando me encontraste na rua, por mero acaso,

tinha acabado de entrar na terceira fase.

sentia-me bem, após várias semanas a perseguir

insectos pelas águas-furtadas da consciência.

podia ter ficado a conversar contigo mais

tempo que o necessário

para te contar que já não preciso que entregues

em casa o que resta de mim, porque vai

sobrando muito pouco e

porque

a minha história foi contada muitas vezes:

parto para me encontrar

perdido, entre olhos claros e um café

bebido na rua a caminho do trabalho, a saber

que tudo isto são brincadeiras muito

perigosas: a vida ou continuar a escrever em jejum

a autópsia do afogado, nos dias submersos,

até aprender a respirar debaixo de água

o que ainda deverá levar mais algum tempo.

Tiago Araújo, in criatura n.º 5, Outubro 2010.

«And Then I Understood», Martin Stranka © Martin Stranka, via Deviantart (D.R.)

 

Links relacionados:

revista criatura

 

Vitorino Nemésio — Pedra de Canto [50]

 

 

Poema integrando um livro tardio, ditado por um violento tardio amor, vivido em estado de adolescência.

PEDRA DE CANTO


[50]

Ainda terás alento e pedra de canto,

Mito de Pégaso, patada de sangue da mentira,

Para cantar com sílabas ásperas o canto,

De rima em –anto, o pranto,

O amor, o apego, o sossego, a rima interna

Das almas calmas, isto e aquilo, o canto

Do pranto em pedra aparelhada a corpo e escopro,

O estupro de outrora, e a triste vida dela, o canto,

Buraco onde te metes, duplamente: com falo

Falas, fá-la chorar e ganir, com falo e canto

No buraco de grilo onde anoiteces,

No buraco de falso eremita onde conheces

Teu nada, o dela, o buraco dela, o canto

De falo, falas, fala, rima, rimas, canto

De pedra, sim, canteiro por cantares e aparelhares

Com ela em rua e cama o falo fá-la cheia,

Canteiro porque o falo a julga flores, o canto

Áspero do canteiro de pedra e sêmen que tu és

(No buraco do falo falaste),

Tu, falazão de amor, que a amas e conheces…

Amas a quem? conheces quem? Pobre Hipocrene,

Apolo de pataco, Camões binocular, poeta de merda,

Embora merda em sangue dessa pobre alma em ferida,

A dela e a tua, cadela a tua pura e fiel no canto

De lama e amor como não há no charco em torno,

Maravilhoso canto só de soprares na ponta a um corno

E logo a sílaba e o inferno te obedecem

E as dores íntimas dela nas tuas falas se conhecem,

Sua íntima vergonha inconfessada desponta,

Passiflora penada, pequenina vulva triste

Em teu sémen sarada e já livre de afronta:

O canto em pedra e voz, psicóide e bem vibrado,

Límpido como o vidro a altas horas lavado,

Como o galo de bronze pela dor acordado,

No amor e na morte alevantado,

Da trampa mentirosa resgatado,

Como Dante o lavrou em pedra de Florença

E Deus to deu de amor por ela no atoleiro,

Flor menina de orvalho e em amor verdadeiro?


Ainda terás alento e pedra de canto,

Fé nela e sua dor de arrependida e enganada,

Ou enfim amor a fogo dado e perdão puro…

Eu quero lá saber! amor de Deus no canto

De misericórdia e paz, mesmo para os violentos

Da violada violeta, a breve margarida

Ao canto unida e em tuas lágrimas orvalhada?

Cala-te e humilha-te com ela,

Que é maior do que tu no canto,

E a esta hora só bebe talvez água salgada,

Oh poeta de água doce!


Mas antes de calar espada e voz, responde:


Ainda terás alento e pedra de canto

Para cantar estas coisas,

Encantar outra vez a donzela roubada e nina morta?

Enfim o teu amor?

Dize lá, sem vergonha,

Homem singelo!

Pois se nisto me mentes nunca mais a verás.


(Quem fala?)

Lisboa, 4.6.1973

de madrugada

Nemésio, Vitorino, Obras Completas – Volume III – Caderno de Caligraphia e Outros Poemas a Marga, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2003

«still watching», olili, © olili, via Deviantart, (D.R.)

Link relacionado — Notas de leitura e poemas da obra.

Da criatura número cinco

imagem promocional da revista © revista criatura (D.R.)

 

 

No seu número cinco, a revista criatura atinge uma maturidade e coesão sem paralelo nas revistas literárias que se publicam actualmente; afirma-se de forma segura como a mais significativa publicação dentro do género neste início de década. Ao referir maturidade, explicite-se que, entre os catorze poetas escolhidos e incluídos neste número, não há algum que escreva inutilmente; que não se encontram aqui poemas duvidosos; e em vão se procurarão fragilidades evidentes.

A ideia de coesão não pressupõe uma qualquer corrente literária geracional –não me parece útil falar de geração nem de gerações num tempo em que a escrita poética se fragmentou em vozes que se movem na singularidade. Contudo, é a selecção dos autores e dos poemas que estabelece uma afinidade, possível de identificar e enunciar por um acentuado antilirismo; em simultâneo, pela frequente utilização do real, das marcas do tempo e dos lugares como matéria poética; formalmente, por um «desejo de narratividade» por vezes quase explícito, que é perceptível em alguns autores (Diogo Vaz Pinto, mas também Rui Pedro Gonçalves, Tiago Araújo).

Talvez o dístico de David Teles Pereira (autor dos melhores poemas da revista), que ao princípio me pareceu exógeno e fácil, seja afinal o resumo do programa inerente à selecção e escolha dos autores e poemas: (A poesia é como as ovas de ouriço-do-mar / sabe melhor com um pouco de acidez).

Esta acidez, presente, por exemplo, nos três poemas de Margarida Vale de Gato (em torno da questão do género, desconstruindo os lugares comuns do quotidiano), é também marcante nos poemas de Roger Wolfe (Os poemas? / Alguns funcionam, / outros não. / Se o que queres / é uma garantia, /então compra um televisor.). O que nos remete para outro aspecto comum a muitos dos autores publicados: a dessacralização do poema, do acto poético, da figura do poeta enquanto entidade de excepção (nesse sentido são particularmente notáveis os poemas de Luís Filipe Parrado, um autor que apenas por desejo próprio, imagina-se, não tem ainda obra publicada em livro, que eu saiba); Ainda os seis poemas em sequência de Jaime Rocha, partindo de uma linguagem quase descritiva, procuram justamente uma imposição da aparente naturalidade das coisas para produzirem um resultado poético (…) Nada / distingue as ruas de um grande / vale de narcisos).

A recusa da transcendência da escrita poética, o deliberado apagamento de uma estilística (presente nos dois poemas de Luís Pedroso) revela-se plenamente na temática, na semântica abertamente coloquial dos excelentes poemas de Jesus Jiménez Dominguez, que, com Roger Wolfe, abrem a revista para fora do âmbito dos autores portugueses (e ainda bem).

Da criatura cinco não se poderá falar de niilismo, de uma poética do desencanto, ou da resignação ao questionamento do real, externalizado ou existencial. Não há aqui um discurso comum, mas uma expressão de contemporaneidade, que não esgota o que se escreve actualmente no domínio da poesia (longe disso) mas reúne coerentemente trabalhos de autores que têm programas de escrita com as afinidades referidas.

O que não deixa de tornar excepcional (porque de uma excepção se trata) a abertura da revista com um conjunto de  poemas de Muhammad Abdur Rashid Ashraf (António Barahona), autor de longa obra poética, que nos cinco poemas publicados (sendo um deles um tríptico) estabelece um poderoso diálogo entre o lirismo amoroso / erótico e a espiritualidade, em poemas de grande solidez formal, fruto de uma mão poética cheia de saber, ofício e sonho.

Não representando escola, nem corrente, a criatura torna-se, neste número cinco, um possível cânone para reconhecimento futuro de muita da nova poesia portuguesa. Um notável labor de selecção e escolha que (se) define. Nele é legítimo pensar  que estaremos perante alguns dos poetas que deixarão marca nos anos que estão para vir.


(transcreve-se aqui um poema de Luís Pedroso, a que se seguirão dois ou três posts com alguns poemas de que mais gostei, a título de divulgação da revista)


O Evangelho Segundo Santo Agostinho


Detesto a arquitectura das teias

e o desaparecimento dos lugares

que os antigos marcavam para esperar a morte


Hoje não a esperamos em campos de batalha

nem em monumentos seculares

Mas em pouco mais, talvez, que na ameaça de um Domingo


«Monument», Owain Roger © Owain Roger, via Deviantart, (D.R.)



Manuel Gusmão — A Velocidade da Luz

 

(à Sofia Moura. obrigado)

Há uma rotação do teu corpo

ou de uma parte dele que está pelo todo

e fora dos eixos do mundo.

Rodas a partir da cintura, estendes um braço,

há um músculo que se ilumina, uma onda

vertical em que tu própria te subisses;

então uma perna flecte-se, e o outro pé fica em ponta

oblíquo sobre o mundo que nesse instante

se suspende.

 

Há uma rotação do teu corpo –

Andas pela casa: és um leve rumor sob o silêncio

um rumor que alumia a sombra silenciosa;

na sala, o homem quase surdo quase cego

ouve-te, julga reconhecer-te: vens aí.

 

Estás aqui. O intervalo de tempo já começou:

há uma rotação no teu corpo

que me exclui do mundo e

entretanto é feita para mim; atinge-me

à velocidade da luz.

E eu o homem quase surdo quase cego

sou tomado pelo vento do fogo que me consome

até ser apenas a última brasa: pequenas ravinas de luz

o incêndio restante sob a exausta crosta da terra

 

Estavas, estiveste ali.

O tempo recomeça.

Apareces e desapareces.

Como a luz do farol disparando no céu sobre as casas

ou como o anúncio luminoso do prédio em frente

que varre intermitente a obscuridade do quarto no filme.

Quando voltará?

 

É como se soubesses

que voltará, sim, e que não, não poderá voltar.

Quando, e se voltar, serei eu talvez

quem já lá não está. Quando

é quando?

Quanto tempo ainda poderá o mundo voltar

à possibilidade dessa forma?

 

 

Estes corpos que somos são estranhas

invenções delirantes: tu não tens rodas e contudo

rodaste como se uma hélice te elevasse

só de um lado, te aspirasse até um outro estrato

aéreo, ou como se tu própria, folha aérea,

folheasses o ar e o mundo estremecesse

fora dos eixos.

 

Isso imprime-se nas areias do cérebro.

 

Depois, viesse um vento

e desfaria as dunas desse mapa:

a impressão ondula, muda de lugar, mas

resiste. É uma fotografia desfocada

uma tatuagem a outra sobreposta

uma cicatriz que esqueceu a ferida.

 

 

Interrompe-se aqui e ali

deixa de ser uma linha fina, um risco

no mundo, para ser uma corda que se entrança

e entrança o mundo.

Há qualquer coisa de movente fixo:

por mais que o tentes, o programa não deixa

que se apague toda e para sempre.

Desligas a máquina, mas o sulco permanece

no écran. Escreves-lhe em cima:

não desaparece, mas troca automática

mente algumas letras;

Encharcas-te em álcool, tabaco e comprimidos

mas a coisa insiste movida pelo fluxo

e refluxo das imagens, das águas, das areias, das sombras.

 

 

Há, houve uma rotação do teu corpo

e há qualquer coisa de irreparável

que me fizeste quando rodaste no mundo –

o quase homem aposta tudo em que voltará.

Joga tudo em que o mundo regressará

a essa forma de uma onda suspensa na música

a essa rotação fora dos eixos.

 

Porque é que dizes então «irreparável»?

Irreparável aponta para onde?

 

Irreparável é o mesmo que antiquíssima

e não idêntica?

A cicatriz é irreparável porque a ferida é perpétua,

esquecida e perpetua?

Tocas-lhe a milímetros de distância,

como quem não quer

a coisa,

e tu devias dar e não dar por isso.

Dir-se-ia que o ar se moveu, que uma coluna

do tempo se deslocou, dançou como a luz por entre nuvens

na parede verde de um canavial.

 

 

Há uma rotação irreparável do teu corpo

irreparável quer dizer que já não a podes parar

irreparável é alumbrada a alegria

o ar fugindo todo o mar subindo até ocupar

todo o campo do céu e

contudo

pudesses respirar o ar irrespirável.

Contra todas as evidências em contrário, a alegria

Gusmão, Manuel, Teatros do Tempo, Lisboa: Editorial Caminho, 2001

«Light Storm», Miniminory © Miniminory, via Deviantart (D.R.)