Sophia de Mello Breyner Andresen — Elsinore

by manuel margarido

 

 

ELSINORE

 

No palácio dos Átridas como em Elsinore

Tudo era cavernoso — as paredes

Eram grossas o espaço excessivo e sonoro

Roucas as vozes da maldição antiga

 

Porém em Micenas o sangue era exposto

E corria vermelho como num grande talho

Sujando apenas as mãos dos assassinos

E a água da banheira —

Lá fora o rio a luz

Continuavam limpos e transparentes

O crime era um corpo estranho — circunscrito —

Não pertencia à natureza das coisas

 

Em Elsinore ao contrário o mal era um veneno

Subtil

Invadia o ar e a luz — penetrava

Os ouvidos as narinas o próprio pensamento —

O amor era impossível e ninguém podia

Libertar-se:

O inferno vomitava a sua pestilência invadia

As veias e os rios —

No entanto o mal não se via: era apenas

Um leve sabor a podre que fazia parte

Da natureza das coisas

 

Nov. 1988.

 

Andresen, Sophia de Mello Breyner, Colóquio/Letras n.º 107, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro de 1989.

 

Ângelo de Sousa, serigrafia s/d — (D.R.)

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