Herberto Helder — «Por isso ele era rei, e alguém (…)»

by manuel margarido

 

 

Por isso ele era rei, e alguém

se punha diante da realeza para ter um pensamento, uma palavra

súbdita: dá-me um nome, uma

baforada

desfere o ceptro contra a minha testa para eu ver

uma constelação maior que onze varas,

enche de hélio o espaço reservado à minha glória quando me volto

na escuridão com toda a potência

dos raios, dizia, o torso envolto pelas ramagens

do fogo,

bate-me na testa e que eu seja a minha luz, onze

varas de luz para os braços torcidos,

uma camisa aos rasgões brilhantes por força

da entrada e saída

do ar, porque de ti recebo a soberania e lanço pela boca

petróleo a arder como no circo dos prodígios

fazem os reis terríveis,

por isso também eu tenho o poder e o sítio e o exercício

desta magia: a realeza de uma combustão,

acto, verbo,

e em estado natural os elementos:

madeira, cristal e ouro, e o ar movendo

o poema número a número.


Helder, Herberto, Poesia Toda, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996

 

«Nebula», Cristina Romero Ríos © Cristina Romero Ríos, via Deviantart (D.R.)