Al Berto — A paisagem prolonga-se

by manuel margarido

 

a paisagem prolonga-se num S de flores azuladas

ela entra nas ruínas

junto ao ângulo penumbroso da casa destruída

está vestida de branco quando ele lhe fala

ambos têm o olhar vago

ela recorta-se sobre um fundo de árvores nuas

ele está de pé encostado a um muro de pedra

ouve-se alguém dizer: não tenhas medo
so

somos apenas actores dum sonho paralelo à paisagem

os lábios dela tremem ou sorriem

ele encolhe-se mais contra a parede

o silêncio ainda não os abandonou

ela espreita-o

ele desenha-se exacto no centro do écran

(de novo uma voz off)

um vento vertical adere à casa

onde as raízes dos cardos irrompem dos alicerces

e quando ela se vira para o interior das ruínas

prende-se-lhe o olhar num ponto inexistente

ele já ali não está

apenas a objectiva da câmara continua a segui-la

Al Berto, Trabalhos do Olhar, Lisboa: Contexto, 1982

 

 

«Window Ruin», Marcin © Marcin, via Deviantart (D.R.)