Fiama Hasse Pais Brandão — quatro poemas

by manuel margarido

«Between the trees», Petitescargot, © Petitescargot, via Deviantart (D.R.)

 

A SÉPIA


Chegava no seu carro solar

ao meio-dia

o amolador rústico.

Com uma roda fruste que brilhava

e ressoava surda

no bater do pedal?

Com o assobio que modula

um ser perdido

na estrada da velha vila

esboçada na paisagem

por trás da vila de hoje?

 
SÃO JULIÃO DA BARRA

1

Sempre vão passando barcos

na Barra ao longe, na linha

de memórias ocas

e é oco o som cavo de apitos.


2

Há manchas de mar por vezes sobrepostas

à rusticidade doce da casa.

Mas um sentido rural que se demora

traz imagens tangíveis tão próximas

daquilo que para mim as coisas eram.

 


METAFÍSICA


Todas as árvores apaziguam

o espírito. Debaixo do pinheiro bravo

a sombra torna metafísica

a silhueta de tronco e copa.

Em volta da ameixoeira temporã

vespas ensinam aos meus ouvidos

louvores. As oliveiras não se movem

mas as formas da essência desenham-se

cada dia com o vento.


Na sombra os frémitos

acalentam o pensamento

até ao não pensar. Depois

até sentir a vacuidade

no halo das flores que o envolve.

Sob as oliveiras, por fim,

que não se movem contorcendo-se,

concebe o não conceber.


ESTRADA DE FOGO
Pedra a pedra a estrada antiga

sobe a colina, passa diante

de musgosos muros e desce

para nenhum sopé;


encurva, na abstracta encruzilhada;

apaga-se, na realidade. Morre

como o rastilho de fogo,

que de campo em campo aberto


seguia, e ao bater na mágica cancela

dobrava a chama, para uma respiração,

e deixava o caminho do portal

incólume e iniciado.


1986

 

Brandão, Fiama Hasse Pais, Colóquio/Letras n.º 108, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 1989.

Between the trees chapter II, Petitescargot © Petitescargot, via Deviantart (D.R.)