Miguel-Manso — Balada da Rua Damasceno Monteiro
by manuel margarido
(à sara)
Os poetas não são augures; mas viveram impossivelmente antes o que veio depois, sentiram improvavelmente antes o que aconteceria depois; não adivinham: passam pelo que que há-de acontecer, pelo pressentimento dos segredos de uma casa, dos segredos de uma rua. O que está escondido têm os poetas, alguns poetas, revelado para si, assim. E assim foi. Como no poema.
BALADA DA RUA DAMASCENO MONTEIRO
ardia de amor pela casa
numa confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo
afundava-se numa líquida recordação cardíaca
ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos
paixão cartografada remota
toponímia dos enganos
braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz
mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo
extinta por sobre a larga extensão destruída
morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica
dentro do coração antigo
serei breve
Miguel-Manso, Contra a Manhã Burra, Lisboa: Mariposa Azual, Maio de 2009

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