Tiago Araújo — Matar o Tempo

by manuel margarido

 

MATAR O TEMPO

(mente corpo)

nasci gémeo. o meu irmão falso

morreu quase à nascença. formei a personalidade

como a memória da metade que me falta.

é o meu irmão que à noite se contorce a coreografar

a comédia dos enganos, num processo de transferência

que se desenvolveu com um

movimento duplo: um

sentido crítico demasiado apurado e um

distanciamento em relação a mim próprio enquanto

personagem sem vontade das narrativas que criei.

em resumo, um catolicismo pessoal, com

ciclos consecutivos de culpa, arrependimento e absolvição.

quando me encontraste na rua, por mero acaso,

tinha acabado de entrar na terceira fase.

sentia-me bem, após várias semanas a perseguir

insectos pelas águas-furtadas da consciência.

podia ter ficado a conversar contigo mais

tempo que o necessário

para te contar que já não preciso que entregues

em casa o que resta de mim, porque vai

sobrando muito pouco e

porque

a minha história foi contada muitas vezes:

parto para me encontrar

perdido, entre olhos claros e um café

bebido na rua a caminho do trabalho, a saber

que tudo isto são brincadeiras muito

perigosas: a vida ou continuar a escrever em jejum

a autópsia do afogado, nos dias submersos,

até aprender a respirar debaixo de água

o que ainda deverá levar mais algum tempo.

Tiago Araújo, in criatura n.º 5, Outubro 2010.

«And Then I Understood», Martin Stranka © Martin Stranka, via Deviantart (D.R.)

 

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