António Franco Alexandre — Formoso amigo meu, podes cantar à lua

by manuel margarido

 

 
Formoso amigo meu, podes cantar à lua

e amar outros mais lestos do que eu.

roer um osso, admirar as estrelas,

seres sábio e humano, além de belo.

Já vi que escreves um diário, com

as patas firmes, o pêlo luzidio,

onde porém há sempre

uma sílaba a mais, presa por fios.

Pouco te importas se eu existo ou não,

e ignoras, das aranhas, o tormento

quando a teia se rasga e é urgente

tomar medidas, e tecer, à espreita

de alguma inócua presa imprevidente.

Voas tão solto, lá no firmamento,

que te tomam por pássaro ou cometa;

e meditas em vastos pensamentos… só não sabes

que ao rasgares o meu leito aqui deixaste

uma gota de sangue, a que estás preso.

Alexandre, António Franco, Aracne, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

via Deviantart (D. R.)