Pedro Tamen – O livro do sapateiro

by manuel margarido

 

 

Em Março de 2010 Pedro Tamen ofereceu-nos «O livro do sapateiro», 49 poemas (escritos entre 18 de Maio e 25 de Agosto de 2009), onde a humildade das pequenas coisas, do fazer quotidiano, do saber da mão, se transporta para a condição do homem, da existência, para a temporalidade: vida e morte, sentido e absurdo. Um livro magnífico, que começa com uma belíssima enunciação da intencionalidade e se estende sequencialmente em poemas lhanos, rentes à palavra, de grande mestria formal, ligados por uma muito subtil narratividade que os sequencia e confere à obra uma unidade firme e brilhante como um sapato primorosamente polido.

[Aqui se transcrevem os cinco primeiros poemas e o último (49). Bem mais do que nove euros, o preço do livro, custam umas meias-solas. E duram menos]

La eternidad está en las cosas

del tiempo, que son formas presurosas

JORGE LUIS BORGES

1.

Iremos procurar a razão da giesta

a razão do amarelo

iremos procurar a razão

iremos procurar

e os olhos tomarão todas as cores

as cores de tudo

2.

Mordeu a vida a pele da minha mão direita.

Na mão direita que segura o ferro

e assim julgava dominar o tempo,

devagar, mas depressa, como não existindo,

entrou incendiado um sopro do destino

sobre o qual aqui me tenho acocorado.

3.

Sentado no curto escabelo que me deram

espreito aqui da cave pela janela alta

as pessoas que passam.

Passam passam deixo de vê-las

enquanto ergo e baixo a ferramenta.

Continuo sentado no escabelo que me deram

e no escuro desta cave estou acompanhado.

Sim, acompanhado

não por quem passa

mas por quem não passa.

4.

Há um rio e o outro lado do rio.

Ao longe há um verde entrando pelos olhos que fecho

e sem saber ao certo

se o que entra é a cor de um certo tempo antigo

ou o licor de um outro tempo novo.

E verifico então de olhos molhados

que não há que saber

nem distinções na paisagem

— que é uma só no largo coração.

5.

Estar aqui é como não estar aqui.

No escuro onde as minhas lentas mãos modelam

a pele deste ser vivo,

o universo,

é da fina camada que cobriu

o seu vasto percurso

no largo da pastagem,

é no táctil roçar da sua vida

que uma luz, é esta!, me transporta.

(…)


49.

Vejo-me no brilho que te dou,

ó espelho das minhas mãos,

fugaz vitória destes dias

últimos.

Tamen, Pedro, O livro do sapateiro, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010

«Shoemaker Faysal II», Ozgur Cakir, © Ozgur Cakir, via Deviantart (D.R.)

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Página  sobre Pedro Tamen (actualizada e excelente)