Inês Lourenço – (dois poemas)
De novo se volta a Inês Lourenço, que já foi referida e transcrita aqui, desta vez com dois poemas publicados na Colóquio Letras n.º 147/148, de Janeiro de 1998 (datados de 1997, muito anteriores, portanto ao seu último livro, Coisas que Nunca, de 2010, publicado na & etc.).
RUA DO BONJARDIM
I
Vindo do marquês, o autocarro
chiava na curva estreita, soltando
os seus vapores de gasóleo, e
num portal surgia um gato pardo
para o qual me inclinei, sabendo
que fugiria ao contacto
da minha mão, ou apenas ao
esboço de carícia, como fazem
os gatos, tão fugidios na presença
de estranhos. Mas o animal, no
instante do recuo, aceitou o
deslizar dos meus dedos,
em troca de amáveis energias. E
uma longa saudade subiu-me pelo
braço, no arquear festivo
daquele pequeno tigre.
RUA DO BONJARDIM
II
Ao entrar no quiosque,
nesta tarde de névoa, para
comprar um jornal qualquer, uma criança
pediu algo que não entendi. Seria
uma moeda para um chiclete? Perguntei
ao homem sentado atrás das
revistas do coração e dos diários
da bola de quem seria a criança, como
se pudesse ser de alguém um ser
tão súbito, nascido da genealogia
indecifrável da tarde.
Porto, 97
Lourenço, Inês, in Colóquio/Letras n.º 147/148, Janeiro de 1998, Fundação Calouste Gulbenkian
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Links Relacionados:
(desactualizado, mas com referências bio-bibliográficas e alguns poemas da escritora:)

