Cantigas de Romaria – As vozes dos homens pelos caminhos de Deus

by manuel margarido

página web da editora “Apenas Livros”

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Uma daquelas designadas «pequenas editoras», a “Apenas Livros”, tem dado à estampa, em «edições de cordel» (palavra de hora que são mesmo) uma notável colecção de títulos que englobam uma enorme diversidade de temas (património imaterial, literatura tradicional, tradição oral, história de Portugal, ciência, antropologia, lendas e contos tradicionais, descobrimentos, festas tradicionais… enfim, é consultar o link no final deste post.

Por 3,80 € (garanto, e o preço médio dos livros da editora não excede este valor), comprei o livro com o título Cantigas de Romaria – As vozes dos homens pelos caminhos de Deus, de Ana Maria Paiva Morão, investigadora no “Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro” (CTTP), unidade de investigação integrada na Fundação da Universidade de Lisboa. Uma viagem lindíssima aos cantares dos romeiros, muito bem introduzida, apresentada e contextualizada, partindo de um acervo de fontes que revela aturado trabalho. Aqui se deixa um excerto, que talvez estimule quem ler à compra de um dos 250 exemplares.

«(…)

Os temas das cantigas de romaria

Se, numa primeira leitura mais apressada, estes cantos de romaria parecem meros cânticos de devoção a um qualquer santo, numa leitura mais atenta desenhar-se-á a grande diversidade de temas e motivos destas cantigas (…), a propósito dos vestígios dos antigos cultos ou das marcas do sagrado nelas encontradas.

Agrupá-las por temas dentro das invocações seria tarefa espinhosa, pois sob a mesma invocação se encontram sentimentos tanto religiosos (A) como profanos (B):

(A)

«Ó Senhora dos Remédios,

Minha mãe, minha madrinha!

Levar as almas ao Céu,

A primêra seja a minha» — (Cebolais de Cima, c. de Castelo Branco).

(B)

«Ó Senhora dos Remédios,

Defronte do arvoredo

Eu já tenho um amor

Mas é muito em segredo» — (Baião).

As cantigas de romaria, de facto, assumem o valor das preces, e vai-se ao santuário para pedir graças, à medida das necessidades de cada um, sendo frequente estarem os pedidos ligados à própria invocação ou atributo do santo.

Roga-se a saúde para os que amam:

«Nossa Senhora da Saúde,

Dai saúde ao meu amor,

Que está doente de cama

E querem dar-lhe o Senhor» — (Póvoa de Rio de Moinhos).

Pede-se a protecção dos perigos do mar:

«Ó Senhora da Saúde

Sois pequenina e bem feita;

Livrai os homens do mar

Dai-lhe a vossa mão direita» — (Oliveira do Hospital).

Livrar da vida militar é coisa ao alcance da Senhora:

«Senhora do Livramento

Livrai o meu namorado,

Que me vai deixar sozinha

Pela vida de soldado» — (Turquel, c. de Alcobaça).

Há, até, apelos de ajuda para a educação dos filhos indisciplinados:

«Mê Senhor São Marcos

Que amansais toiros brabos,

Amansai-me este filho

Que é pior que todos os diabos» — (São Marcos da Serra, c. de Silves).

O casamento é um dos dons mais apetecidos, ainda que com algumas condições:

«Ó meu rico São Gonçalo

Tende de mim piedade,

Deparai-me um maridinho

Consoante a minha idade» — (Amarante).

Um excesso de devoção desencadeia estrnhos desejos e o pedido de um noivo muito especial:

«Nossa Senhora da Lapa

Eu hei-de ser vossa nora,

Se me derdes o Menino

Que está no altar de fora» — (Sernancelhe).

E, já que se pede, aproveita-se, mesmo, para na mesma cantiga se fazerem dois pedidos:

«Senhora Santa Luzia,

Da capela de Moreira,

Dai-me vista aos meus olhos,

Casai-me que estou solteira» — (Arcos de Valdevez).

Um duplo pedido, feito à mesma santa, em Barcelos, pode assumir contornos mais drásticos:

«Lindos olhos tem António

Santa Luzia guardai-lhos!

Se eles não são para mim,

Santa Luzia tirai-lhos»

festejos em honra a Nossa Senhora da Saúde, em Canelas – Estarreja © blogue “Notícias d’Aldeia”

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Links Relacionados:

editora Apenas Livros

Centro de Tradições Populares Portuguesas Manuel Viegas Guerreiro