Adília Lopes – Louvor do lixo

by manuel margarido

 

Louvor do lixo

 

para a Amra Alirejsovic
(quem não viu Sevilha não viu maravilha)

 

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão

Lopes, Adília, A mulher-a-dias, Lisboa: & etc, 2002

© Paulo César, via Olhares, fotografia online, (D.R.)

 

Links Relacionados:

O poema, lido pela autora:

Site sobre Adília Lopes (poemas, entrevistas, críticas, links diversos)

O (novo) blogue da & etc

 


© Capa de Bárbara Assis Pacheco

Advertisements