João Miguel Fernandes Jorge e a importância de uma nota de posfácio, seguido de dois poemas (um de Joaquim Manuel Magalhães)

by manuel margarido

 

 

Um posfácio (neste caso, uma «Nota») pode ser um apêndice de circunstância (pode aliás ser muitas coisas). Raras vezes a nota final de um livro contribui de forma tão estimulante para a compreensão da petite histoire, ou da gesta que se encontra na origem de uma obra, como este texto de João Miguel Fernandes Jorge que fecha a edição de Obra Poética – Volume 3,  do referido autor. A transcrição desta nota revela-nos impressões e considerações do autor perante uma decisiva parte da sua obra e, o que é igualmente de grande pertinência, as histórias que cada um dos livros referidos lhe evocam. Nela, na «Nota», é como se um período de uma intensa importância na reformulação dos cânones da escrita poética em língua portuguesa nos surgisse, por um lado de forma evocativa, por outro quase como uma crónica. À transcrição da referida «Nota», seguem-se as transcrições de um poema de Cartucho e, compreensivelmente, do poema «28 de Setembro», de Joaquim Manuel Magalhães, na sua versão publicada em Os dias, pequenos charcos (a outra, a de Um Toldo Vermelho, não se justifica evidentemente transcrever aqui).

 

«Cartucho»

 

 

NOTA

 

A primeira edição de Meridional surgiu em 1976 na Plátano. Uma segunda versão foi publicada no Roubador De Água (1981). Com pequenas alterações é esta segunda a versão que sigo.

Vinte e Nove Poemas (1978) foi o primeiro livro da colecção Inverso (Regra do Jogo) e trazia, numa das páginas iniciais, uma polaróide de João Botelho. Pertencem a este livro poemas de 1977 e 78 e ainda poemas que foram contemporâneos de Sobre Sob Voz (1971). Alguns deles tiveram publicação anterior em Fevereiro, revista de poesia (1972).

Direito de Mentir (Arcádia, 1978) é um livro de que particularmente gosto. Inclui dois títulos anteriores: Cartucho (edição dos autores, 1976) e Man Ray, Oito Tiros à Sua Morte (O Oiro do Dia, 1977). Cartucho (a que correspondem os cinco primeiros poemas de «Poemas que estavam no Cartucho e outros que podiam lá ter estado»), foi um cartucho mesmo e onde me acompanharam o Joaquim Manuel Magalhães — a quem se deve a ideia —,  o António Franco Alexandre e o Hélder Moura Pereira.

O meu pai deu-nos os cartuchos, o cordel e os chumbos que os fechavam. Lá dentro ficaram poemas bem amarrotados. Mandámos imprimir um rótulo com os nossos nomes na tipografia «Proletariado Vermelho», que ficava no meu bairro. Não esquecer que corriam os gloriosos dias de 76! De resto, quando eu e o Joaquim vínhamos da Consolação com a mala do carro cheia de cartuchos acabados de fazer, fomos interceptados por uma operação stop das vigilâncias populares, à entrada da Calçada de Carriche. Ao mandarem abrir a mala do carro e ao verem os cartuchos perguntaram: — «O que é isto?» O Joaquim respondeu-lhes: — «São livros!» Como se de rosas se tratasse! Acharam coisa acertada para a revolução em curso. (Seria este o motivo para o seu poema «28 de Setembro» de Os dias, pequenos charcos).

Quanto a Man Ray, Oito Tiros À Sua Morte trazia consigo um desenho de António Palolo.

Mas o Direito de Mentir no dia em que ficou pronto e em que fui à editora buscar o primeiro exemplar, ao abri-lo, vi com grande espanto que os poemas não eram os que eu tinha escrito. O Direito de Mentir trazia o miolo do livro Voo Domestico de António Manuel Couto Viana. Houve que proceder à sua troca, pois os tão conseguidos poemas de Couto Viana sobre Luanda e o fim do Império não me pertenciam. Tudo acontecia como uma pequena ironia movida no cumprimento do título, já por si tomado a partir do texto «Sobre um pretendido direito de mentir por humanidade», de Kant.

Depois é a poesia pequeno jogo entre acaso e destino, entre matéria e memória. Quase posso chamar para este momento a presença do meu poema final de O Regresso dos Remadores (1982): «Poemas»: «Aspectos perdidos / pequenas sombras ao redor de poderosa imagem // Aquilo que / distingue a palavra ave da palavra pássaro.»

Há neste acaso e destino e nesta matéria e memória o carácter da experiência e da duração que encontra o seu fundamento na constituição íntima não só do seu criador, como na fantasia desse mesmo criador. Um passo para o surgir de um outro jogo: o que vai da presença de uma memória pura ao existir de uma memória (in)voluntária. Ontem, um parasita cultural escrevia acerca de um livro meu: «Este notável poeta é muito inteligente, e muito arguto nos objectos que escolhe, mas deixa-nos sempre a estranha impressão de raramente acertar. É uma espécie de Mr. Magoo feito caçador de borboletas.»

Agradeço-lhe a notabilidade e a inteligência. Tenho de ambos que me baste. E fico contente com a imagem de «Mr. Magoo». Em Mr. Magoo pode muito bem ter a poesia e a feitura da arte um seu sinal. Quase cego, pitosga, tudo trocando pelo objecto próximo, de quando em quando acerta ou julga acertar; e traz ao conquistado espaço do vivido a sua aparente borboleta.

Pequena criação; Mr. Magoo é bem o poeta ou o feitor da arte: uma vida inteira ou um breve instante para dar lugar a um verso e, quantas vezes somente um verso vai restar como sustentáculo de toda uma obra, que sempre permanece escondida em tudo o que o criador vê.

 

Consolação, 1 de Janeiro de 1988

 

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética, 3.º Volume — Meridional, Vinte e Nove Poemas, Direito de Mentir, Lisboa: Editorial Presença,  1988

 

«Mr Magoo»

 

 

POEMAS QUE ESTAVAM NO CARTUCHO

E OUTROS QUE PODIAM LÁ TER ESTADO

 

1

 

Como podemos esperar.

Aguardar o que as nossas mãos possam reter.

Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas

têm já o estado do vento

o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

 

Aguardar mais aguardar nada

Quanto mais se repete uma palavra

«estou sentado virado para a parede desta casa»

baixo, mais baixo ainda,

«estou sentado virado para a parede desta casa»

 

Fazer que não haja sucedido o sucedido.

O prazer de sentir chegar as coisas

O riso sob a chuva

O frio que faz. Aqui

 

Como podemos esperar uma noite de lua e vento?

Jorge, João Miguel Fernandes, Obra Poética, 3.º Volume — Meridional, Vinte e Nove Poemas, Direito de Mentir, Lisboa: Editorial Presença,  1988, p.91

 

 
28 DE SETEMBRO

Começou tudo na tourada.

Isto é, como devia ser. O curro

predispunha à intervenção.

Essa urgência de voltar à mesma

havia de turbar o meu regresso

a Lisboa. Barreiras CDE de resistência

coscuvilhavam bagagens à procura

de calibres, uma fila maçada

de automóveis burgueses era vista

como homens de mão do Spínola.

No meu vinham cartuchos,

perto de duzentos com poemas,

rótulo nominal e fio com chumbinho.

O polícia popular não entendeu,

«São livros, meu senhor!»

Outros dois não queriam crer.

Eu ateimei. Acabou tudo a rir-se.

Magalhães, Joaquim Manuel, 5º poema de Escritos militares, 8ª parte de Os dias, pequenos charcos (1981)

 

«28 de Setembro 1974 barricadas à entrada de Lisboa contra a "Maioria Silenciosa"» (arquivo: C.M.Odivelas)