Gare

by manuel margarido

À medida que se aproxima da gare, o homem sem sono não se dá conta que as grandes lâmpadas amarelas dos candeeiros tristes e ralos da praça se vão apagando. Um engano camarário reles, porque ainda é noite, as ruas de repente ficam escuras; e daí não é engano, são as lâmpadas que, ao adormecerem, perguntam, com insolência: — porque não dormes, homem insone? Sem respostas na cabeça (tão branca por dentro) para ouvir perguntas inaudíveis, o homem entra na gare e nessa as luzes têm ideias diferentes: alinhados, grandes globos de luz dourada laranja industrial encadeiam-no, apertam-lhe as pupilas como um choque, fria onda a bater na costa. Porque faz frio, e os círculos de luz não aquecem, apenas dão uma cor intensa, tracejante ao ar gelado, juntando-se a ele para acordarem o homem que não dorme, e afirmando: — Se não queres dormir, acorda então, pela luz e pelo frio acorda de vez, que tens andado tão adormecido que nem dormir queres conseguir. E o homem, que não ouve esta praga, semicerra os olhos e procura em vão uma máquina de café que funcione. As grandes acesas esferas paralelas do comboio que chega, o primeiro da manhã, levam-no ao difícil esforço de não ficar com demasiadas luzes de luzes de luzes nos olhos quando os fecha, as pálpebras já cansadas não querem confusão, já lhes chega o que chega. O homem, que quer dormir e não consegue porque não consegue querer, pisca e volta a piscar os olhos, desvia-os para o altíssimo tecto da gare, onde a cor é macia como a cinza das penas dos pombos. Aí repousa os olhos durante muito tempo; até que estes aquietam, a sua cabeça vazia vazia continua, vazia densa em tumulto, mas a parar devagar, a parar como o comboio que chegou. E nisto deve ter levado muito tempo, porque quando baixa a cabeça para a gare, quando os seus olhos deixaram de repousar na penumbra do tecto e no manso esvoaçar dos pombos, o dia nasce. Tinha chegado a hora natural de acordar para o homem que não consegue dormir porque quer tanto que não consegue querer.

De frente para a linha, o homem, os olhos agora muito abertos e vendo claro como se tivesse bebido o café que não encontrou, fixa-os, os olhos, nas linhas do caminho de ferro. Ao contrário das bolas, das lâmpadas, dos faróis, ao contrário dos círculos que acendiam, apagavam e apareciam para confirmarem que o sono é a mais arbitrária e dura das batalhas quando se não têm os mapas do sossego dos comuns, o homem olha as linhas. E ao contrário, o homem vê que as linhas, por serem tão rigorosas, tão precisas, e prometerem sonhos apenas porque se perdem de vista, o homem sente que os carris paralelos, as linhas de aço azul, não falavam com ele: pediam-lhe, docemente, que falasse ele com elas. E o homem falou. Falou apesar de si, as linhas eram tão limpas e imutáveis que lhe deixam a cabeça, agora a limpar-se da névoa branca, poder falar por ela. E a sua cabeça sem sono começou a falar, sem mando. Dizia — linhas de ida, de partida, de chegar onde o sono te deixa à solta os sonhos; ao contrário dos círculos amarelos dos faróis, não era um augúrio de chegada, mas um imenso desejo de partida,  a respiração funda e macia de abalar sozinho para um lugar qualquer.

Então o homem sente o que a linhas prometiam, no seu alongado aço que se estendia até um ponto ínfimo que a sua vista conseguia unir, que delas se poderia partir para o calor e para o sono. O contrário dos círculos que chapavam perguntas que não ouvia, não podia ouvir, não escutaria nunca. Os círculos: luzes que não deixam ver e se enrolam e volteiam em revoltas sem fim, sem remédio na sua forma fatal, porque é uma fatalidade um círculo, dando voltas tantas e tantas que batem certo a doer no cérebro ainda há pouco vazio de vazio.

O homem lança um último olhar sobre as linhas. Um olhar muito mais prolongado que aquele que repousara no tecto da gare. Os olhos do homem enchem-se de água, sem qualquer expressão no rosto; essa, a expressão, está noutro lado e sai-lhe dos lábios secos, sai seca e rouca. – É por ali, pai, dá-me a mão.

 

«Train Station», Sinankut @ Sinankut, via Deviantart (D.R.)

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