“Morreste-me”

by manuel margarido

 

 

Socialmente a morte tem vindo a ser, no Ocidente, progressivamente escondida como acontecimento maior na experiência humana, ocorrência perante a qual se estruturam e organizam os comportamentos, os laços, a construção identitária, emocional, social; o confronto (encontro) espiritual que habitará em cada um. Por iniciativa da Pastoral da Cultura da diocese do Porto publicou-se e começou a ser distribuída hoje uma brochura com o título em epígrafe, que pretende, segundo Joaquim Azevedo, director do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura, “ser um instrumento útil para cada pessoa promover a desocultação da morte e do seu sentido, nas suas vidas quotidianas”. Uma boa apresentação desta publicação pode ser encontrada aqui, mas realça-se o conteúdo, com cinco textos da autoria de António Filipe Barbosa, Fernando Rosas, João Duque, José Nuno Silva e José Pedro Angélico e três poemas, de Daniel Faria, Fernando Echevarría e José Tolentino Mendonça. Deste último, aqui se deixa, por já estar acessível online, o poema «Ilha dos Mortos».

 

Ilha dos Mortos

Enquanto iluminas a entrada do rio
o cobre emudece dinastias sem número
por degraus desiguais os mineiros,
os artesãos, as lavadeiras
lutam pela perfeição, lutam por Deus
em galerias remotas
as armas de caça vencidas
por ramos e arados

nenhuma morte é tão longa quanto a vida
diria quem pela primeira vez
visse debaixo de árvores sombrias
o sítio do mar, a porta das constelações
cem espantos possíveis
e no espanto uma esperança

o loureiro assinala a todos sua ciência negligenciada
címbalos, manuscritos e coroas
atiradas para o chão como vestimenta da batalha
insígnias do nosso posto de estrela em estrela

dão-nos sem nós pedirmos
ouvimos até sem querer
acima das arestas sombrias
a noite clara e os bosques

 

José Tolentino de Mendonça, in «Morreste-me», publicação do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura do Porto, 2010

 

«The Isle of the Dead» (“Basel” version) 1880, Arnold Boecklin

(clique para ampliar)

 

Advertisements