Lígia Reyes – Campanhã

by manuel margarido

 

 

Ainda sem obra publicada, com uma produção poética algo irregular na sua continuidade e formalização, Lígia Reyes (1990) é capaz de surpreendente maturidade poética, presente em poemas como este.

 

Campanhã

Doeu-me Campanhã nos ossos todos;
A minha sopa a arrefecer, só me apeteceu
Apanhar o combóio de volta a casa,
Mas quando cheguei só me lembrei
Que não comi tudo até ao fim.
Recordei um poema que escrevi

E até esse ficou incompleto.

Só gostava de te encontrar
Porque me dizias que poderia ser a melhor,
Poderia ser tanto,
Até a madrugada me ficou entalada na garganta:
O sol nasceu e os teus olhos eram esverdeados como os meus.

Agora sou melhor e pergunto-me
Se algum dia
Comerei a parte que me faltou escrever.


«Converse for the train», Hamovi3 © Hamovi3 (D.R.)

Lígia Reyes, via o blogue Parafilias, com autorização da autora.