António Lobo Antunes – As crónicas na “Visão”

by manuel margarido

 

As crónicas de António Lobo Antunes são seguramente as mais belas publicadas na imprensa em Portugal. E não o são apenas pelo seu carácter “literário”; bastaria, claro, o ofício e a mão do autor para colocar estes textos num plano singular, sem paralelo naquele que se convencionou designar como o género «crónica». Mas, ao partir de pequeníssimas cenas quotidianas, pessoas vulgaríssimas, gestos sem consequência aparente, acontecimentos desprovidos de interesse visível,  António Lobo Antunes constrói ‘frescos’ de uma realidade que nos passa todos os dias perante os olhos, vista nestes textos com fulgurante lucidez, num olhar apenas na aparência desemocionalizado e irónico – e aí está a marca distintiva do dispositivo textual – mas ensopada de ternura, algo perto da proximidade cúmplice com o outro que se torna, de alguma forma, um outro ‘eu’. O estilo (um estilo Lobo Antunes aplicado à crónica) atinge aqui uma dimensão funcional implacável: porque é ele que, na casualidade breve da frase, na informalidade desenvoltíssima e colorida de cada diálogo, na deslocação do objecto, na evocação da memória ainda que por episódios, reminiscências, quase traços, na repetição utilizada como modo de revelação, elabora fortíssimos quadros de uma pessoa, de um rua, de uma cidade. Do mundo todo, ou de tudo isto junto.

Aqui se deixa (com a devida vénia e à laia de publicidade) a crónica que, em 7 de Outubro, António Lobo Antunes publicou na revista “Visão”. Uma iluminadora leitura das «gengivas desmobiladas» de todos nós.

 

O Cabo Ferrador

Duzentos euros por mês não dão para muita coisa: uma sopinha e uma maçã ao almoço, uma sopinha e uma maçã ao jantar. Nos intervalos pede-me cigarros

– Não há por aí um cigarrinho a mais, doutor?

ou senta-se nas esplanadas até o mandarem embora, tratando-o por tu

– Põe-te a andar

e ele lá segue para o café próximo a arrastar um sapato sem atacadores. Não aceita esmolas, não aceita dinheiro, só pede cigarros aos amigos

– Só peço cigarros aos amigos

de acordo com o seu código aristocrático de miséria. Quando quis oferecer-lhe uma camisola recusou ultrajado

– Sou algum infeliz, eu?

e levou uma semana a perdoar a minha incompreensão da sua dignidade Você pode ser doutor e escrever livros mas não percebe nada da vida e tem razão, não percebo nada da vida. O seu maior orgulho é ter feito a tropa em Chaves

– Em Chaves, senhor

e eu, que nunca fui a Chaves, esmagado de respeito por Chaves pela maneira como ele fala

– Quem não conhece Chaves conhece pouco do mundo

e tem razão outra vez, conheço pouco do mundo. Pergunto-lhe

– Como é Chaves, senhor Ismael?

e em vez de resposta olha-me, durante uma eternidade, com pena sincera, até erguer ao alto, por fim, a mão de unhas duvidosas, unidas em cacho para dar ênfase à maravilha da cidade. A mão acaba por descer a fim de aceitar um cigarro

(um cigarrinho)

e o senhor Ismael a estender-se para a labaredazita do isqueiro

– Tem montanhas perto

e o

– Tem montanhas perto

deixado cair como uma moeda fora da circulação, pequena condescendência a um ignorante que não merece que se gaste tempo em explicações. Depois de tossir o fumo acrescenta

– E outras coisas

submerso em inesquecíveis lembranças militares, paisagísticas, amorosas

– Gajas boas não faltam

gajas boas a inundarem, só para ele, as ruas de Chaves, sorrindo-lhe, piscando-lhe o olho, chamando-o num sussurro prometedor

– Ismael

e o senhor Ismael, é claro, a dar conta do recado

– Sempre dei conta do recado, doutor fossem dez, vinte ou cinquenta

– Pelos ossos da minha irmã que está na cova que aviei seis numa tarde

sem tirar o bivaque de magala

– Mostre-me uma mulher que não goste de fardas

as mulheres e o senhor Ismael gostavam de fardas, puxou de uma espécie de carteira que, com o tempo, adquiriu a forma da sua nádega, na carteira o retrato seboso de um soldado

– Soldado vírgula, amigo, cabo ferrador

o retrato de um cabo ferrador, cheio de infância na cara mas inigualável a aviar, em que levei tempo a descobrir a criatura de agora, já sem infância nenhuma na cara, pregas, cicatrizes, a pele a lembrar-me o mapa de Portugal da minha escola, com uma cagadela de mosca no Alentejo e uma segunda mesmo ao lado de Faro, nas feições do senhor Ismael também os pontos negros das cidades, rugas iguais ao Guadiana e ao Douro, a ponta de Sagres do queixo, o estuário do Tejo da boca e, a propósito de boca

– Não se arranja um bagacinho que tenho a língua seca

mostrando-ma a sair das gengivas desmobiladas, guardando-a de novo

– Sequíssima

pronta à lubrificação do bagaço, metido na goela de uma só vez, à homem

– Quem não mete o bagaço de uma só golada não é homem nem é nada

seguido de soluços e lágrimas afastadas com desprezo pela manga

– A gente envelhece

e no meio das lágrimas do bagaço uma lágrima diferente, que ele percebeu que eu notei dado que

– Isto passa

de súbito quase menino, quase aflito, quase a abraçar-me, o retrato do magala por uma pena, cheio de infância na cara. Disse

– Doutor

repetiu

– Doutor e ficámos os dois que tempos em silêncio porque na realidade o

– Doutor

um discurso compridíssimo, com todas as suas desgraças dentro. Passado um grande bocado acrescentou

– Tenho dormido num degrau, sabia?

levantou-se da cadeira e foi-se embora, aposto que sem pensar em Chaves, nos montes, nas gajas, todo inteiro no interior de uma incomodidade com picos que o atormentavam, o filho morto em criança, a mulher ida com um caixeiro viajante, os duzentos euros, a sopinha. Mas havia de acabar por animar-se

– Isto já passa amigo

porque não há azares que um cabo ferrador como deve ser não aguente, em sentido para o toque a silêncio, que nos mexe a todos por dentro e é o mais bonito que existe.

 

António Lobo Antunes, revista Visão, 07 de Outubro de 2010

 

«Razão Forte», Stuart de Carvalhais (ficheiro online encontrado no blogue "Dias que Voam")