A. M. Pires Cabral – O Triunfo dos Insectos

by manuel margarido

 

 

 

O TRIUNFO DOS INSECTOS

Nem todos os insectos atingirão Novembro.
Em Dezembro se verá ainda alguma asa
tentando seu tardio, resignado
golpe de breve alcance, e acaso na cortina
sobreviverá algum retardatário
menos exposto ao clima. E Janeiro
mal guardará memória da vida pequenina,
tenaz e resistente ao calendário,
por fêmeas diligentes algures depositada.

Terei eu, entretanto, resistido ao frio,
talvez escarnecido a morte intercalar
de tanto corpo humilde
dado ao rio.

Mas quando Maio enfim rufar o seu tambor,
soprar o seu clarim,
as asas engelhadas se desenrugarão,
o céu será pequeno, as flores escassas.
E os insectos vis triunfarão
dos gelos e de mim,
minhas desgraças.

Que são sessenta anos
mais do que um ano só?
Que é uma semana
mais que um dia?

Só que nenhum insecto se agonia
das crises do inverno – enquanto eu
manejo estas palavras de esconjuro,
estes laboriosos dialectos,
e a face não escondo, que não posso,
do rosto violento
do grande inverno duro
que está por vir por via dos insectos.

Cabral, A. M. Pires, O Livro dos Lugares e Outros Poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006

«Housefly», Josgoh © Josgoh. via Deviantart (D.R.)