Herberto Helder – O Poema/I

by manuel margarido

 

Ainda as escolhas de Maria Alzira Seixo (em os poemas da minha vida). O poema de Herberto Helder e o breve comentário aposto ao mesmo.

 

O POEMA/I


Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne.

Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

rios, a grande paz exterior das coisas,

folhas dormindo o silêncio

— a hora teatral da posse.


E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.


E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único, invade as casas deitadas nas noites

e as luzes e as trevas em volta da mesa

e a força sustida das coisas

e a redonda e livre harmonia do mundo.

— em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.


— E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

 

 

Head of J. M. II © Frank Auerbach (D.R.)

 

(nota de leitura de Maria Alzira Seixo)

[Com Herberto aprendemos sempre que o poema é, em termos de linguagem, construção e objecto, e damos conta do seu incomensurável poder. Só a ele ficarão incólumes os analfabetos, e é da responsabilidade de todos que eles deixem de existir, por este meio também.] – Maria Alzira Seixo.

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