Beatriz Hierro Lopes – Jardim de São Lázaro

by manuel margarido

(texto inédito)

O que fazemos aqui, todas as horas paradas, tu olhando a superfície da água, eu a estátua de quando os meus pés, no colo de minha mãe, não me chegavam para tocar o chão de mármore, o que fazemos aqui? E talvez nunca tenhamos feito nada, talvez não façamos nada, já viste como o mármore escureceu com os anos? De tantos pés a ser pisada, mármore cinza como os dedos que trocam de jornais, dá-me metade, peço-te, os meus dedos caminhando lentos sobre as dobras das páginas sujando-se de letras e, não percebo, que nunca percebi bem as letras e a visão do branco que se abre no fim delas, no centro delas, elas negras manchando o branco e o branco sem se esquecer que é branco espreitando por entre as grades. Cinza como os meus dedos, que guarda as memórias deste mármore. Que o sujo com os meus passos de quando ainda era menos do que o colo de minha mãe, tu à minha frente, que ando devagar, eu pedindo-te ensinando-te a curvatura imperfeita que os meus passos criam ao tocarem o chão, dizendo-te, – anda lento, e o lento, um pouco como o vento que sopra lamentos sobre o lago que vês. No centro da água, emergindo de um só trago, os braços o rosto, a nadadora de branco, petrificada desde o colo de minha mãe, e o que vês (sem saberes) são todos os anos que juntei para que pudesse estar aqui, neste banco vermelho de jardim, pedindo-te metade de um jornal que não é meu.

Do coreto em que nunca entrei, por não ser daquele coreto as brincadeiras de infância, só as escadas, eu sentada nas escadas, imaginando depois do colo de minha mãe, que a porta que dava acesso à cave debaixo do coreto se abria e que dela saíam as raízes de todas as árvores, porque as raízes das árvores têm nome e têm corpo, e era com elas que falava quando ainda era só eu e não existia mais ninguém para lá do fim dos meus pés. Dava-lhes voz e cores, que o sangue de cada árvore é diferente, e existiam as verdes as azuis as amarelas, com sabores de gelado e de fim-de-tarde de Agosto de quando o meu pai não trabalhava e me ensinava a andar de bicicleta. Mais tarde, eu tropeçando, a bicicleta que era branca como mármore sujando-se de terra porque as raízes das árvores, expondo as mãos ao sol como fios de cabelos agarrando-me os tornozelos, não gostaram que eu me esquecesse das escadas do coreto. Que agora, vendo bem, me parecem demasiado pequenas para as minhas pernas para os meus pés e a guarda que o fecha, pintada de verde, que por eu ter pernas longas e pés grandes poderia saltar e brincar no coreto, mas as brincadeiras as árvores estão mudas, que na minha cabeça já não existem árvores nem colo de mãe ou bicicleta cor de mármore. Só esta ideia estranha de que a minha estátua, busto de homem, se parece com uma lápide funerária. Não há aqui mortos, embora os haja debaixo do jardim, nesta terra que antes de ser terra de jardim foi cemitério de cidade. Talvez nas raízes das árvores cabelos mortos de mulheres feias, não mães que as mães só colo e cabelo castanho quase dourado e, quem sabe, talvez fossem elas fazendo-me tropeçar de bicicleta, os joelhos raspando na terra, manchando-a de vermelho que sou vermelho como os bancos deste jardim, onde nem o meu pai nem a minha mãe liam jornais, e não havia dedos cinzentos nem meninas de horas caladas presas ao lamento das águas.

Talvez só estejamos aqui para eu te mostrar de que cor é a cor do branco das páginas que se fecham na minha mão.

 

Beatriz Hierro Lopes, Outubro de 2010

 

 

«Out in the garden», Ailera Stone © Ailera Stone, via Deviantart (D.R.)