Rui Pires Cabral – A Nossa Vez

by manuel margarido



A NOSSA VEZ


É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia

a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar


e entram clandestinas no poema.

São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos

atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva

nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer

a nossa vez.

Cabral, Rui Pires, Longe da Aldeia, Lisboa: Averno, 2005

«Not Quite There», Bogdan Stefanescu © Bogdan Stefanescu, via Deviantart (D.R.)