Luís Felício – o som a casa

by manuel margarido

Com o som a casa, Luís Felício acaba de ganhar o concurso literário Artefacto Poesia, instituído pela Sociedade de Instrução Guilherme Cossul. Do livro, a ser publicado ainda este ano nas Edições Artefacto, se deixa aqui um poema (em pré-publicação pro bonum e agradecida), fragmento de uma obra onde os poemas se concatenam. E os parabéns ao Luís Felício, que me confiou/confidenciou para leitura o manuscrito original, (que poderá ter conhecido alterações.)

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cravo o prego no olho

do pássaro a cal mimética

opera a dissolução dos caminhos


sei que infância alguma me trará

de volta o branco odor do pó

(o nome assim tão raso do mundo)


à/a frase que cumpre o desígnio da espada

no furor da caça na solidão dos púcaros

a frase o friso semeado a mel cingido em ancas


e só meu esse gesto inodoro que

ornamenta a face afogueada do guerreiro

cujas mãos consumam a ira

de todas as metáforas

o céu é um favo a prumo sobre os olhos

o amor uma vertigem mineral

o gesto tão infantil de cavar o céu

inteiro a prumo a golpes de cinzel e susto


é sempre através dos nomes que a infância termina

é sempre através dos nomes que na carne se consuma

a terra aberta desde a raiz dos cânticos

«under the sky», Ariana Jordan © Ariana Jordan, via Deviantart (D.R.)