Mário Cesariny – Pastelaria

by manuel margarido

À Helena Amaral, que em 1986 me ofereceu o meu primeiro livro de poesia. Este, onde se encontra o poema transcrito.


Pastelaria


Afinal o que importa não é a literatura

nem a crítica de arte nem a câmara escura


Afinal o que importa não é bem o negócio

nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio


Afinal o que importa não é ser novo e galante

— ele há tanta maneira de compor uma estante


Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos

frente ao precipício

e cair verticalmente no vício


Não é verdade rapaz? E amanhã há bola

antes de haver cinema madame blanche e parola


Que afinal o que importa é não haver gente com fome

porque assim como assim ainda há muita gente que come


Que afinal o que importa é não ter medo

de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita

gente:

Gerente! Este leite está azedo!


Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo

à saída da pastelaria, e lá fora — ah, lá fora! — rir

de tudo


No riso admirável de quem sabe e gosta

ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Cesariny, Mário, burlescas, teóricas e sentimentais, Lisboa: Editorial Presença, 1972

«A Brasileira», Stuart Carvalhais, Tinta-da-china s/ papel (s.d.), espólio Museu da Cidade (D.R.)