Agustina Bessa-Luís – As Fúrias (excerto final)

by manuel margarido

(de volta)

Virtualidades das redes sociais: uma página dedicada à escritora acende como um rastilho a memória que do seus livros tenho. Procurando dar contributo para a referida página, acabo com As Fúrias na mão, e mesmo antes de o começar a reler já, deixa-se aqui o fragmento com que o romance termina. Falta um par de dias para que se cumpram 33 anos sobre a sua publicação.

«As traseiras da Rua do Almada ... e da Praça Filipa de Lencastre», Carlos Romão © Carlos Romão, via «A Cidade Deprimida», blogue

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(…) Uma das vezes em que esteve na casa paterna ouviu falar na moradia da Foz, que ia ser vendida para dar lugar decerto a novas garagens e super-mercados. Os seus habitantes tinham sido desalojados, e para evitar outros intrusos, as janelas foram estilhaçadas e parte do telhado arrancado. A escada até ao primeiro andar foi destruída. Aguardava assim o braço do ‘caterpillar’, com uma energia que a fazia parecer ainda um belo modelo de metrópole passada. Pedro Rondom não foi lá; seria demasiado romântico uma visita dessas, e sobretudo o tempo não estava distraído no sentido dessas cogitações. Mas pensou com amargura que nada restava de Virgínia, que a marca da sua mão não ficara na balaustrada da entrada onde muitas vezes a vira, o tronco inclinado para fora como o de uma estátua prestes a precipitar-se. O cabelo, delgado, escondi-lhe a face; mas ele adivinhava-lhe o movimento dos lábios, a pálida boca que resumia uma passividade da razão que ele quisera explicar. Por fim, pelo que tinha de irremediável, isso fizera com que a amasse.

Uma família de ciganos instalou-se no jardim, mas foi expulsa logo a seguir; as rãs continuaram a coaxar tranquilamente no lago cuja podridão fazia rebentar bolhas de gás à superfície. Talvez a salamandra negra existisse ainda como um pequeno monstro dos abismos que dorme e desperta sem ética possível e sem transcendência. Era eterna por isso mesmo. Pois o que toda a inteligência ilumina é mortal. Doutro modo, a vida tornava-se insuportável.

Porto, 28 de Setembro de 1977.

Luís, Agustina Bessa, «As Fúrias», Lisboa: Guimarães e C.ª, Editores, 1983