João dos Santos – «Morrem aos 30 e são enterrados aos 70»

by manuel margarido

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Os políticos realmente são supostos ser pessoas adultas, sem infantilidades, que não brincam com as coisas. Mas eu não creio que isso se passe só com os políticos. Acontece o mesmo com muitos outros indivíduos, com pessoas que exercem funções um tanto burocráticas, ou directivas, funções que exigem um certo investimento de autoridade e de seriedade, funções que fazem com que as pessoas que se investem dessa autoridade deixem de ser crianças, ou fazem com que as pessoas que deixaram toda a sua infância para trás, que a anularam, possam ser chefes de qualquer coisa, directores, polícias, enfim, coisas diversas. Mas isso poderá acontecer até a indivíduos que não têm nenhuma função dessas, a indivíduos que pura e simplesmente se esqueceram completamente da infância, que renegaram, por assim dizer, a infância.

Não estou a ver, por exemplo, um amigo que nós conhecemos e que brinca muito com as palavras e com as ideias, não estou a ver que ele pudesse ser qualquer dessas coisas. Ele só pode ser aquilo que é, que é professor de toda a gente! É assim como um barman, que é o amigo desconhecido de toda a gente! Aquele nosso amigo é também um professor de toda a gente, porque brinca com as ideias, brinca com as suas palavras, sabe dar gargalhadas, é engraçado, acha graça às coisas, mantém, em suma, uma certa infantilidade, apesar dos seus 70 e tal anos.

E há muitas pessoas assim, enquanto que outras com trinta e tal já são pessoas muito sérias num campo qualquer, já se investiram duma carapaça que os impede de gozar as coisas de que uma criança gosta, que são a água, o vento, a chuva, a brincadeira e as partidas que fazem aos outros, as irreverências e as piadas, enfim, tudo isso, que faz o encanto da vida de certas pessoas que não querem de maneira alguma ser um desses indivíduos de quem se poderia dizer, como diz uma história, que morreu aos 30 e foi enterrar aos 70. Morrem aos 30 e são enterrados aos 70! Quer dizer, andam por aí mortos ou petrificados, são uma espécie de seres embalsamados.

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Excerto de um diálogo [«A gente bate-lhe e tudo e ele nunca chora»] mantido entre o Professor e pedopsiquiatra João dos Santos, e João Sousa Monteiro na Rádio Comercial entre Outubro de 1983 e Julho de 1984, conversas transpostas para o livro «Se Não Sabe Porque é que Pergunta?» da editora Assírio e Alvim.

«summer sea children, ssuunnddeeww © ssuunnddeeww, via Deviantart (d.r.)