Reinaldo Ferreira – Se eu nunca disse que os teus dentes

by manuel margarido

Reinaldo Fereira (autor desconhecido)

Não é agora ocasião para falar de Reinaldo Ferreira, uma das personalidades mais fascinantes que atravessaram o século XX português, amplamente desconhecido hoje, bastante subestimado sempre. A ele se dedicará, quando o tempo o permitir, um post com alguma da informação que se foi juntando por via do fascínio pessoal pelo homem e pela irregularíssima, por vezes desconcertante, por vezes excepcional obra que deixou. Deixe-se, então, um poema do autor, por razões de memória instante.

 

Se eu nunca disse que os teus dentes

São pérolas,

É porque são dentes.

Se eu nunca disse que os teus lábios

São corais,

É porque são lábios.

Se eu nunca disse que os teus olhos

São d’ónix, ou esmeralda, ou safira,

É porque são olhos.

Pérolas e ónix e corais são coisas,

E coisas não sublimam coisas.

Eu, se algum dia com lugares-comuns

Houvesse de louvar-te,

Decerto que buscava na poesia,

Na paisagem, na música,

Imagens transcendentes

Dos olhos e dos lábios e dos dentes.

Mas crê, sinceramente crê,

Que todas as metáforas são pouco

Para dizer o que eu vejo.

E vejo lábios, olhos, dentes.

Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa: Editorial Vega, 1998

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